Na mitologia grega, Aquiles é referido como sendo o grande herói grego da Guerra de Tróia, o melhor entre todos os guerreiros, vencedor do duelo com Heitor, o príncipe de Tróia que era também um guerreiro exemplar e o líder das suas tropas, o que seria depois decisivo na vitória dos gregos nesta guerra. Heitor, que ficou para a história como sendo um exemplo de virtudes e valores, encontrou a sua morte às mãos de um implacável e terrível Aquiles, um guerreiro superior sedento de vingança pelas mortes infligidas pelo troiano. Aquiles foi magnífico, um verdadeiro herói do seu tempo, vencedor em inúmeras batalhas e combates, derrotou guerreiros afamados que eram os heróis das outras nações, foi amado e adorado pelos seus, inspirou muitas gerações de jovens guerreiros, foi apreciado, invejado e imitado pelos seus feitos, desejado pela sua aparência e temido por todos devido à barbaridade dos seus actos. Os seus feitos inspiraram imensas obras literárias e artísticas ao longo dos tempos, o seu nome utilizado para baptizar muitos equipamentos de guerra e assim inspirar soldados de muitos países e ainda hoje é reconhecido, pelo mais comum dos mortais, como um dos grandes guerreiros de sempre. Mas Aquiles também era dotado das falhas e da mortalidade que são características dos humanos. A sua morte aconteceu perto do final da Guerra de Tróia, às mãos de Páris, irmão de Heitor, com uma ferida no calcanhar provocada por uma seta. Aquiles acabou por morrer devido a um pequeno ferimento numa parte à partida não vital do seu corpo, com um golpe desferido por um príncipe de Tróia, numa altura em que a guerra já estava ganha pelos gregos. A expressão “calcanhar de Aquiles” passou a ser utilizada de forma generalizada em todo o mundo para se referir a todo o tipo de pontos fracos e não deixa de ser irónico que um dos maiores guerreiros de todos os tempos, vencedor de inúmeros duelos e dotado de características físicas únicas, seja na maior parte das vezes, e pela maioria das pessoas, recordado e referido pelo momento que levou à sua morte e pelo seu ponto fraco, em vez de ser recordado pelas suas inúmeras vitórias e pelos seus muitos pontos fortes. O nosso “calcanhar de Aquiles”, o sector com mais e maiores problemas, o que mais nos preocupa enquanto sociedade moderna e esclarecida, é a Saúde. Hoje, ninguém se lembra ou fala das conquistas que foram conseguidas neste sector durante a nossa Autonomia. Os sucessos, os bons resultados, o prestigio e o orgulho de pertencer a este sector de actividade, são memórias já distantes de um passado que parece irrepetível. A herança recente é terrível, mas desenganem-se aqueles que pensam que a nossa Saúde está perdida. Para os mais “distraídos”, eu reafirmo mais uma vez: a Saúde é o melhor sector de actividade de Portugal! E se isso é verdade para o país, também terá de o ser para a nossa Região Autónoma. Os nossos profissionais de saúde e todos os quadros superiores da Saúde, foram formados nas mesmas escolas, institutos e universidades, que os profissionais de todos os hospitais e centros de saúde do resto do país. A nossa Saúde tem todas as condições para ser fonte de soluções e não de problemas, possui massa crítica suficiente para dar a volta por cima e é um sector vital para o futuro da Madeira. Mas as soluçoes para os problemas da Saúde estão dentro do sector, não estão nos conhecimentos avulsos e inadequados de pessoas de fora da Saúde. Para quem duvidar daquilo que afirmo, eu dou um exemplo: não é por haver um médico menos capaz que o seu trabalho deve passar a ser feito por um qualquer engenheiro, pedreiro ou advogado. Precisamos de dar oportunidade aos melhores da Saúde e temos que os ter nos melhores lugares. Cada um deve trabalhar naquilo em que se especializou e para aquilo que estudou. Introduzir elementos estranhos ao sector é acrescentar problemas aos existentes, muitas vezes agravando-os, perdendo tempo e recursos cada vez mais escassos. Importar quadros superiores sem experiência no sector e sem qualquer formação académica relacionada com o mesmo é receita certa para o desastre, da mesma forma que apostar nas pessoas certas para os lugares errados é mesma coisa que apostar nas pessoas erradas para qualquer lugar. “Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis.” – Bertolt Brecht

Duarte Nuno Dória