Quando em Janeiro estreou a série Borgen na RTP 2 estávamos muito longe de pensar que Portugal ficaria na situação em que está hoje. Uma semana após as eleições e Portugal continua sem novo Governo, sem que se saiba quem será o próximo Primeiro-Ministro e que nova arquitectura governativa terá, se de esquerda ou se de direita. A série televisiva passa-se na Dinamarca e desnuda o mundo da política onde as coligações entre forças partidárias são o pão nosso de cada dia e o partido derrotado na noite das eleições pode surgir, dias depois, com uma coligação maioritária para formar governo. A ficção mistura-se com a realidade por essa Europa nórdica a fora, governos de coligação pós eleitorais existem e muitos. Portugal, a sul, está acostumado a que o vencedor da noite eleitoral forme governo, mesmo que minoritário. Tem sido assim, mas continuará a ser? A última semana tem sido pródiga em surpresas, com o PS a negociar à esquerda e à direita, apesar de ter perdido as eleições. É necessário deixar a poeira assentar, ainda não sabemos claramente o que vai na cabeça dos líderes partidários. Esta semana é decisiva. O que fará o PS? Constituirá um governo de esquerda, maioritário no Parlamento? O Bloco de Esquerda como se posicionará? As palavras de Jerónimo de Sousa são para levar a sério? O PS apoiará o governo da direita? O que pensa o Presidente da República? A semana que hoje começa lançará luz sobre estas e mais questões. Vamos supor que António Costa consegue formar um Governo de esquerda com o apoio do BE e do PCP. A questão de fundo que se coloca é saber que alterações provocariam na geografia política Portuguesa, depois de 40 anos de governos PS, PSD e CDS-PP. Em primeiro lugar seria uma revolução na forma como os Portugueses olham os diferentes partidos políticos portugueses, com a ascensão do BE e PCP como partidos do arco da governação. Com o PCP e o BE a assumir funções e responsabilidades governativas o chamado voto útil no PS, para derrotar a direita, deixaria de existir, alterando de forma substancial o quadro eleitoral do partido. O PS estará disponível a correr o risco de perder o chamado eleitorado do centro, maioritariamente pro-europeu, que umas vezes vota PSD e outras vota PS? Aos olhos dos eleitores passariam a existir dois blocos eleitorais, à esquerda PS, BE e PCP, e à direita PSD e CDS-PP. O PS assumiria assim, a partir desse momento, a incapacidade de ser poder em Portugal sozinho, como tem acontecido com o PSD que desde 1995 nunca mais voltou ao governo sem a bengala do CDS. Os votos de protesto migrariam para outras forças partidárias que não o BE e o PCP. Outra premissa que passaria a fazer parte da nossa realidade política é que o partido mais votado, se não tiver maioria absoluta, pode não ser governo. Ainda estamos num cenário ficcionado, mas com a progressiva fragmentação eleitoral à esquerda, esta realidade pode estar ao virar da esquina. E nós não somos a Dinamarca.

Victor Freitas Deputado do PS na ALM