Não sei que governo aí vem. Não sei quanto tempo durará. Não sei que país daí sairá. Tento perceber a abstenção. E dou com o mau tempo, o envelhecimento, a emigração. Há um país nos cadernos eleitorais. E há um país fora deles. O país está partido em milhares de pedaços e espalhado por toda a parte. Quero escrever sobre isso, mas só me ocorre um poema de Manuel Alegre: “Vi minha pátria derramada/na Gare de Austerlitz. Eram cestos/ e cestos pelo chão. Pedaços/ do meu país./ Restos./ Braços.” Não sei que governo aí vem. Não sei quanto tempo durará. Não sei que país daí sairá. Tento perceber a abstenção. E dou com o desgosto, o desdém, a descrença. Que interesses representam estes? Que interesses representam aqueles? Quem nos representa a nós, os cidadãos? E a quem é que isso interessa? Quero escrever sobre isso, mas só me ocorre um poema de Álvaro de Campos: “Tirem isso tudo da minha frente! (…)/ Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!/ Ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles todos. (…) De modo completo, de modo total, de um modo integral: Merda!” Não sei que governo aí vem. Não sei quanto tempo durará. Não sei que país daí sairá. Tento perceber a abstenção. E dou com a resignação. É a vitória do “não há alternativa”, da Margaret Thatcher. E que morta que se supunha estar, não era?, a antiga primeira-ministra do Reino Unido (1979-1990). Quero escrever sobre isso, mas só me ocorre um naco de prosa de António Lobo Antunes: “Mas não podíamos urinar sobre a guerra, sobre a vileza e a corrupção da guerra; era a guerra que urinava sobre nós e os seus estilhaços e os seus tiros, nos confinava à estreiteza da angústia e nos tornava em tristes bichos rancorosos (...).” Não sei que governo aí vem. Não sei quanto tempo durará. Não sei que país daí sairá. Cumpri o meu dever. Dediquei algum tempo a pensar no estado da nação. Até andei lá fora à procura de boas ideias para resolver dois dos seus problemas estruturais (o despovoamento do interior e a adaptação ao envelhecimento). Votei. E agora? Quero escrever sobre isso, mas só me ocorre um poema de Jorge de Sena: “Que Portugal se espera em Portugal? Que gente ainda há-de erguer-se desta gente?”
Ana Cristina Pereira Jornalista do ‘Público’