Vou votar no Edgar. Subscrevi a candidatura de Sampaio da Nóvoa, porque sei que é uma pessoa honesta, simpatizo com Marcelo, de quem guardo a memória de uma das primeiras entrevistas que fiz, no antigo aeroporto e de muitos encontros ao longo destes mais de 20 anos em que admirei a sua inteligência. Estava indeciso para onde iria o voto, mas vou votar no Edgar. Porque há coisas que estão muito acima da política, do tão falado e pouco compreendido sentido de Estado ou das responsabilidades dos cidadãos. Muito mais.

Não sou comunista, socialista, centrista ou outro 'ista' partidário qualquer. Sou portista e maritimista e isso chega. Mas vou votar no Edgar, sem hesitar.

Conheci-o quando tinha oito anos. Ele era muito mais velho, deveria ter 11 ou 12. Um dos grandes, para nós, miúdos da segunda classe, que ainda andavam na escola que tinha o triste nome de Salazar e que um ano depois seria dos Ilhéus. O irmão era o meu melhor amigo. Colega e camarada até ao fim do Liceu e até hoje.

O Edgar era um modelo. Jogava bem à bola, era ponderado quando todos eram tão irresponsáveis quanto a infância e a adolescência podem ser. Era o mais velho. Falava e os outros ouviam.

Passaram os anos, as décadas, e no regresso a uma terra que cheguei a pensar não ser um porto de retorno e numa profissão que foi vocação e não formação, voltei a ver o Edgar. Ele era político caloiro, eleito há pouco tempo para deputado, eu era o jornalista que uma aleatória agenda de redacção tinha colocado na política. Ele era o senhor deputado, eu era o jornalista que quando os promotores das conferências de imprensa queriam passar a mão no pelo também era promovido a senhor.

A roda da vida e o passar dos anos poderiam ter criado barreiras naturais que a política e a profissão assumem. Parecia ser assim, mas tudo voltou à infância dos oito anos quando me chamou pelo nome que só alguns conheciam. O nome de infância, da adolescência, dos tempos de vizinhos na Levada do Cavalo. Estava tudo na mesma.

O Edgar não vai ganhar, nem sei até onde vai chegar, mas tem o meu voto porque sei que seria o melhor Presidente da República. Porque esteve sempre ao lado dos mais fracos, daqueles que eram colocados fora da fotografia das inaugurações. Porque muito antes de ser reconhecida a pobreza e a exclusão que esta terra produziu, já estava lá, a levantar a voz e a falar para quem não queria ouvir. Porque continua a ser o mais velho e um exemplo para os miúdos da vizinhança, vou votar no Edgar.