As eleições do passado domingo deixaram o país num impasse e os portugueses incrédulos com os seus resultados. Ou, talvez não… Duas semanas antes das eleições, dizia o bispo resignatário das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira: “Estaríamos perdidos se a coligação continuasse à frente do país.” O bispo centrava as suas críticas na postura da coligação e dos seus líderes e comentava: “Fico escandalizado, como cidadão, com a maldade e o alfabetismo de políticos que esquecem as pessoas a quem agradecem os sacrifícios são as mesmas pessoas que calcaram. Riem-se do passado, mas o passado já foi julgado e bem, nas últimas eleições. E, em vez de se deixarem julgar agora, tentam iludir dizendo – nós fizemos, nós salvámos. É muito fácil governar com o dinheiro dos outros. É muito fácil governar fazendo as contas a dividir por todos. A coligação governou á nossa custa. “Não se pode permitir que os intérpretes do PSD/CDS ousem prosseguir no envenenamento da opinião pública, arvorando-se em salvadores à custa da opressão”, comentou o Bispo. O que aconteceu então na mente dos portugueses para garantir a manutenção da coligação? De facto, irá passar para a história política a forma como, depois de quatro anos de malfeitorias a todos nós, um governo pode ir a eleições e vencê-las sem pedir desculpas e sem apresentar programa, sem uma única ideia de futuro. Se a coligação venceu, o silêncio e o falar de obra feita (ainda que dolorosa) foram mais eficazes do que promessas de soluções tecnocráticas (ainda que sedutoras) mas que se perderam na dificuldade de explicações. Estar calado pode ter voltado a ser o melhor remédio. Também sabemos, porque vimos, que a mensagem de António Costa não era clara, a alternativa que apregoava era difusa e parecia resumir-se a números. Não era empolgante nem inspiradora. Pergunto, como é que Costa permitiu que o discurso do medo, utilizado pela coligação, se sobrepusesse ao medo real que os eleitores deviam ter de outros quatro anos iguais aos que passaram? De facto o medo venceu a esperança. Sim, o medo. O fantasma da pobreza material mas acima de tudo o fantasma da pobreza espiritual, a maior de todas as pobrezas. Depois do êxtase produzido pela droga “mercadista”, a “utopia mãe da globalização”, surge agora efectivamente a negação de toda e qualquer dignidade. O que já aconteceu nestes últimos quatro anos era suficiente, por si, para progredir na direcção de horizontes mentais diferentes aos até agora dominantes, para uma visão diferente da vida, menos material e mais espiritual, menos fechada na esfera privada, mais comunitária, mais responsável, em suma, mais política. A economia é importante, mas a realidade da sua plenitude e a vida na sua complexidade são algo diferente. Foi isto que a grande maioria do povo português não soube ou não quis compreender. Isto, mas não só. Se o medo foi determinante, a divisão das forças de mudança contribuíram determinantemente para a manutenção de uma “maioria” que tem a austeridade como objectivo fundamental. Mesmo a PAF, perdendo cerca de 700 mil votos tal não foi suficiente para surgir uma alternativa coesa e de índole verdadeiramente social. O combate levado a efeito pelo BE incidiu prioritariamente contra o PS como primeiro adversário quando o principal objectivo era desalojar a direita austeritária. Tudo isto, talvez, porque uma importante face oculta desta coligação de partidos (BE) transporta em si “almas penadas” de um estalinismo bafiento. Não quero deixar de analisar estas eleições também na Madeira cujos resultados são em si um pouco surpreendentes. Em primeiro lugar, realçar o resultado desastroso do PSD/M que reflete a forma como foram constituídas as listas. As renovações em política têm que ser feitas com tacto de forma faseada, apontando a candidatos de reconhecida competência e minimamente conhecidos. Neste aspecto, Miguel Albuquerque não foi suficientemente hábil e hipotecou parte do seu capital político adquirido. Perdeu um deputado e a queda podia ter sido maior. O PS/M não obteve ganhos significativos com este erro monumental de Albuquerque. Os socialistas madeirenses ao entrarem na discussão pública dos seus candidatos e em total discordância com o líder nacional não só perderam a oportunidade de apresentar um candidato forte (Bernardo Trindade) como a alternativa no seu todo foi bastante mais fraca. Carlos Pereira e Luís Vilhena, por si, e por motivos diferentes, não eram os candidatos para se assumirem como alternativa. Volto a repetir o que já muitas vezes afirmei: assim o PS/M dificilmente, nos próximos anos, será alternativa de poder na Madeira. O BE conseguiu um óptimo resultado fruto de erros alheios mas também porque apresentou um excelente candidato. O CDS com este resultado comprometeu o futuro. Calculo os motivos mas a estratégia não só não resultou como vai deixar marcas para futuro. Por ultimo, não posso deixar de referir Alberto João Jardim, o vencedor destas eleições na Madeira. Com uma conjuntura favorável não deixou de ganhar em todos os tabuleiros. As eleições de domingo passado deixaram o país num impasse. Não havendo maioria absoluta e sem sinais evidentes de que qualquer partido á esquerda possa viabilizar um governo minoritário da coligação o que restaria era uma intervenção do Presidente da Republica de modo a ultrapassar os resultados das legislativas onde se preanunciam a instabilidade politica e, agora sim, o medo. E talvez isto seja somente o início de uma dinâmica que corre o risco de se tornar incontornável, á medida que a ascensão da extrema-direita na Europa se associa ao mesmo tempo às práticas de defecção e ao desejo de um retorno de vingança que atravessa uma parte do imaginário da opinião pública, cansada das promessas não cumpridas de uma democracia de luto. Com a indisponibilidade do PS para viabilizar as políticas da coligação os tempos que se aproximam serão difíceis. Mas a História não acaba aqui…
Roque Martins