Emanuel Gaspar Muito se tem discorrido acerca das iluminações natalícias concebidas pelo arquitecto Paulo David que, quanto mais não seja, mostraram ter a virtude de levar os madeirenses a reflectir um pouco sobre as decorações festivas desta quadra. No entanto, a celeuma gerada em torno deste assunto pareceu exceder o razoável, roçando a histeria dos despropositados e ofensivos juízos de valor que, a coberto da covarde protecção do anonimato, circularam nas redes sociais sobre o referido autor.
A grande maioria destas críticas é de tal modo negativa e destrutiva que chega a pôr em causa a cultura estética e cívica dos seus autores ao rejeitarem as elementares regras da cidadania e da sã convivência.
As iluminações deste ano destacam-se de imediato por serem fruto de um projecto diametralmente oposto às histriónicas decorações dos anos anteriores, usualmente pautadas pelos clichés e por uma exuberância em alguns casos excessiva. Este projecto apresenta uma contenção que, utilizando uma linguagem muito mais depurada do que aquela a que nos habituaram, evita sempre o aumento desnecessário de ruído visual e demonstra um extremo respeito pela cidade: esta iluminação decorativa, muito correctamente, passa quase despercebida durante o dia esperando pela noite para se revelar. Tem ainda a particularidade de chamar a atenção de todos para o nosso património construído e para o nosso património botânico, afinal o que nos diferencia e enriquece. Pessoalmente gosto das subtilezas e das recriações ou reinterpretações.
Do diferenciar das belas sumaúmas da nossa cidade, da recriação luminosa das buganvílias das ribeiras de que em tão grande número fomos privados pelo 20 de Fevereiro sem que, incompreensivelmente, tenham ainda sido recolocados os cabos para que elas voltem a correr livremente sobre os cursos de água (“as buganvílias voltarão a estender placidamente sobre as ribeiras os seus braços brancos, rosa, cor de vinho” – Tolentino Mendonça).
Ao que parece, a empresa executante do projecto de iluminação teve grandes falhas e, eventualmente, algumas opções do plano do arquitecto terão sido menos bem conseguidas, mas há algo que ninguém pode desmentir: a cidade estava bela, graciosa e elegante.