É hora de abrir regos.
Miguel Albuquerque ganhou as eleições no PSD-M e, sem surpresa, diversas simpatias na imprensa nacional. Umas mais súbitas do que outras, essas trabalhadas pacientemente durante anos. Uma semana depois, a sucessão inequívoca ainda cheira a rosas e ao som de um qualquer piano vende-se a impressão que a oposição finalmente manda na Madeira.
Muito se escreveu nos últimos dias sobre o novo líder do PSD-M. A política parece ter ganho jazz na era do ‘groove' e pétalas azuis quando o vermelho volta ser moda, mas quanto a programas e ideias, aquilo que o ‘enfant terrible’ pensa não ganhou o estatuto de interessante. A moção ‘Renovação’, que até é pública, foi ignorada. Terá sido por temor ao alerta de Cavaco Silva para a necessidade de “ser cuidadoso nas promessas eleitorais que se fazem e que, não podendo depois ser cumpridas, acentuam perigosamente a desconfiança dos cidadãos em relação à classe política e às instituições”?
Uns dizem que o irreverente enterrou o jardinismo. Outros que abriu o ciclo do miguelismo. E depois? O que sobra do País das notícias e dos comentários é bem elucidativo sobre o futuro: Albuquerque sabe nadar!!! E ainda faltam falar algumas celebridades e as habituais senilidades.
Mesmo sem ir ao Goucha ou à ‘A tarde é sua’, o país letrado sabe que Miguel conquistador cultiva flores, fala inglês, é especialista nas áreas do Direito Criminal e de Família, tem cinco filhos e detesta copos. Que é neto de um antigo opositor a Oliveira Salazar e “muito dado a encarar os problemas de frente, mesmo que para isso tenha que passar da argumentação à exaltação”. Que é “teimoso” e “repentista” e que detesta entraves às suas decisões e burocracias. Que “foi um jardinista, mas saltou do barco a tempo e construiu uma imagem de rutura e viragem que lhe permitiu ganhar a liderança”. Que “é muito popular pela forma como chega às localidades e fala com as pessoas e também graças à sua imagem”. Que “as velhotas suspiram e dizem que parece o Jesus Cristo quando tem a barba por fazer”. Que “não tem o dom da palavra nem é um político brilhante, pois há muitos assuntos que ele não domina, de tal forma que um dos outros candidatos chegou a transcrever num jornal um discurso dele e as frases não faziam sentido, não havia relação entre elas”. Que é amigo de Passos desde os tempos da “jota” e fã de botânica, e por isso “ não deixa de ser uma ironia semântica que tenha derrotado Jardim”. Que “foi um querido” do líder cessante embora com um estilo “mais fechado, intelectual e urbano”. E que “não tem pejo em dar um ou vários gritos quando as coisas descarrilam galgando os trilhos que ele próprio projetou”, tonalidade apenas para consumo interno, pois na relação com a República, “não é aos berros que se defende da Madeira”...
Este filme 'promocional' é manifestamente redutor de um projecto ambicioso e que tem como meta uma maioria absoluta. Mas é o preço de uma prolongada fase em que a imagem valeu sempre mais do que os conteúdos.