1. Perde-se no tempo, a origem deste ritual profano que a cada passagem de ano percorre o mundo em festejos pontuados com fogo, cor e música. Comum a todas as manifestações é o capital de esperança, a crença que tudo pode ser diferente do ano que findou, a promessa de remissão das dores, o augúrio de boas fortunas, a viragem para um novo ciclo de vida que recomeça a cada dealbar de Ano Novo … mesmo se a ilusão só durar enquanto estralejam os foguetes ou tilintam os copos. Ainda assim, como se de um filtro mágico se tratasse, vamos repetindo “Bom Ano Novo”, infantilmente crentes no sortilégio do verbo, qual responsório dirigido a uma generosa divindade cósmica... Mas o clima de festa e euforia da passagem de ano não pode fazer esquecer as questões que pontuaram o ano velho e continuarão na realidade de todos os dias, no país e no mundo. O ano de 2015 herda, à margem de taxas de crescimento económico e financeiro à escala global, a persistência das desigualdades sociais e económicas, o aumento da pobreza, do desemprego, da precariedade, da desregulação laboral, da infame escravatura, o acentuado retrocesso dos direitos humanos, o fanatismo e os extremismos insanos que matam com requintes de barbaridade, e conferem ao mundo um crescente sentimento de insegurança… Do ponto de vista político, ao avançarmos nesta segunda década do século XXI, assiste-se ao paradoxo de ao alargar da democracia na generalidade dos países, corresponder o enfraquecimento da confiança dos cidadãos nos seus eleitos. Preocupante o desinteresse nos processos eleitorais, a descrença nas lideranças, nas elites, nas instituições de representação democrática, esvaziadas de soberania… No nosso país e ao cidadão comum, os processos judiciais à volta dos famigerados vistos “gold” e afins, as suspeitas de fraude que envolvem altos dirigentes do Estado e antigos governantes são um sintoma grave de qualquer coisa inquietante que parece estar a minar instituições e organismos estratégicos do Estado, pervertendo a sua missão primordial. De repente parece que outros interesses que não o superior interesse nacional se sobrepõem na agenda. Arrepia já ouvir o matraquear da argumentação a favor de privatizações e alienações de parcelas importantes do património nacional, onde se adivinham grandes negócios cujo encaixe parece como sempre favorecer a indústria financeira, que como já percebemos, é quem manda. À pala de discutível legitimidade democrática, não andaremos levianamente a vender soberania? 2. O concelho de Santa Cruz celebra este ano quinhentos anos. Data de 1515, o foral de D. Manuel I que lhe conferiu identidade municipal. O início simbólico das comemorações ocorreu no passado dia 15 de Dezembro, com uma recriação dramatizada da apresentação do documento régio que agradou aos quantos estiveram no salão nobre do Município. O programa da efeméride estender-se-á ao longo de 2015, encerrando-se a 15 de Dezembro. A hora convida a olhar para esta parcela do território que há quinhentos anos se autonomizou do concelho de Machico, as suas gentes, as suas actividades económicas, o seu imenso património cultural, as suas tradições e atender às potencialidades advindas da sua localização estratégica na região, o ser a porta de entrada e saída em termos de transporte aéreo … Que caminhos se abrem às cinco freguesias deste concelho, com identidades tão marcadas? Interesse turístico? Talvez. Com uma ruralidade circunscrita às zonas altas, já ninguém irá trabalhar a terra, recuperar os terrenos, erguer paredes como antigamente… Poderão estas localidades, algumas em acentuada desertificação reconverter-se em projectos de agro-turismo, ou nichos de turismo natureza? E as actividades artesanais, a indústria do vime que durante tanto tempo foi o suporte da economia familiar e tanta fama deu à Camacha não poderá ser recuperada? Perder-se-á este precioso saber artesanal, património cultural e memória colectiva? O dinamismo das sociedades encontra sempre respostas, algumas bem sofridas, como a emigração, para sobreviver. E o concelho de Santa Cruz também sabe das dores da diáspora… As gerações mais novas buscarão por certo outros caminhos onde singrar na vida, numa terra parca de recursos, escassa de espaço, magra de matérias-primas, que desde o seu povoamento se destinaram sempre aos que se fizeram senhores, numa divisão da terra, eternamente desigual e parcial. Ontem e hoje. E talvez sempre… Mas Santa Cruz já mostrou que é capaz de ousar novos caminhos, ainda que difíceis de trilhar, através do “foral” do voto. E o caminho faz-se caminhando como diz o poeta…

Júlia Caré