Dizem-nos que o primeiro do ano é o mais fácil. É só olhar para trás, fazer um balanço do ano que se extingue, ou olhar em frente, pensar no que poderá marcar o ano que principia. Mas ninguém nos diz que é preciso não estar enjoado com os excessos das festividades que vão do Natal aos reis (e que bem que me souberam todas as delícias que a minha irmã pôs em cima da mesa). Olhar para trás pode ser uma dor. Nem precisamos de pensar nos dramas nacionais ou internacionais que enchem as páginas dos jornais. Basta pensar em quem nos desapareceu. Morreu o Eusébio, o Philip Seymour Hoffman, o Paco de Lucía, o José Wilker, a Nadine Gordimer, o Rubem Alves, o Robin Williams, o Gabriel García Marquez, o Joe Cocker e mais não sei quantas pessoas e nenhuma nos faz tanta falta como aquele amigo que perdemos (até sempre Miguel Gaspar). Talvez seja por sobrevivência mental que, ao toque das doze badaladas, fazemos uma lista que cabe no quadro de lousa que penduramos numa parede da nossa cozinha ou noutro sítio pelo qual passamos todos os dias. Que podemos nós contra os desmandos de ad-Dawlah al-?Islamiyyah, Bashar al-Assad ou Vladimir Putin? Que poder, que não o do voto, temos sobre Jean-Claude Juncker, Passos Coelho ou Alberto João Jardim? Este ano, para estar em consonância com o que passa no mundo, a minha lista de resoluções tem uma vertente de autoflagelação. Vou submeter-me à tortura da depilação definitiva e ao tormento do exercício físico. Nada de zumbas e outras acrobacias, que eu não tenho coordenação motora que chegue para isso. Caminhadas e ioga, essa milenar arte de criar harmonia entre pensamento e acção. Não pense que isto é altruísmo. É pavor mesmo. Aproximava-se o final do ano, declarava Annie Lennox, vocalista dos Eurythmics, acabadinha de fazer 60 anos: chegando a uma certa idade, temos muito para dizer, mas a cultura popular é tão redutora que as pessoas só querem falar sobre as rugas que nos apareceram, o penteado que alteramos, o peso que ganhámos ou perdemos. As pessoas, nos tempos que correm, têm todas de parecer jovens e saudáveis. Se não quiser ser uma excluída, só me resta, está bom de ver, deixar a negligência em 2014 e entrar em 2015 pela porta grande do exercício físico (depois de ter escrito isto já não há como voltar atrás, não é?). Talvez assim não chegue a Janeiro de 2016 enjoada.

Ana Cristina Pereira Jornalista do Público