José Maria Amador Admira-me o estado de euforia com que a comunicação social se referiu à vitória de Miguel Albuquerque como futuro líder do PSD/M, uma euforia associada ao fim do regime jardinista que governou a Madeira nas últimas décadas. Sou do tempo em que a sucessão de Salazar por Marcello Caetano causou idêntica euforia. Era a designada “Primavera Marcelista” em que este promoveu uma liberalização do regime, autorizando o regresso de exilados políticos, convidando para o governo gente altamente qualificada não afecta ao regime, como membros da famosa SEDES, em que pontuavam, entre outros, João Salgueiro, Rogério Martins e Xavier Pintado, para além de ter introduzido na então designada Assembleia Nacional jovens com ideias liberais como Pinto Balsemão, Sá Carneiro, Mota Amaral entre outros. Foi um período em que se assistiu a um assinalável crescimento económico, de 8 a 10% ao ano, só travado com a crise petrolífera de 1973. Mas a questão principal na altura, que era a resolução da questão colonial, foi adiada indefinidamente e apenas resolvida com a queda do regime, com o golpe militar de 25 de Abril de 1974. Marcello foi sempre muito próximo de Salazar. Apesar da duras críticas que, em privado, fazia ao ditador, ocupou, entre outros, importantes cargos no regime, como Ministro das Colónias, Presidente da Câmara Corporativa, Ministro da Presidência e por fim Reitor da Universidade de Lisboa. Tal significa que apesar das divergências com Salazar, Marcello Caetano foi sempre um homem do regime e um seguidor do ditador. Comparando esta situação com aquela que actualmente se vive na Madeira, podemos encontrar algumas coincidências. Miguel Albuquerque foi, a par de Cunha e Silva, o outro “delfim” de Jardim e muita gente vaticinava que seria o seu sucessor natural. Esteve durante vários mandatos à frente da Câmara do Funchal, até que começaram as divergências entre os dois líderes regionais. Jardim, apesar da sucessivas promessas que sairia do governo, manteve-se até a actualidade. Albuquerque teve a “coragem” de discordar desta situação e enfrentar o Presidente do Governo quando veio a público a gravíssima crise financeira em que a Madeira se encontrava à custa das dívidas contraídas junto de instituições de crédito através das designadas Sociedade de desenvolvimento, Graças a este imenso despesismo, os madeirenses terão que pagar aos respectivos credores milhares de milhões de euros durante dezenas de anos, com manifesto prejuízo para o desenvolvimento económico da Região. Perante esta situação de calamidade financeira cujo principal responsável é o ainda actual presidente do Governo e perante o descrédito a que progressivamente foi votado, facto comprovado em recentes eleições autárquicas em que o PSD/M perdeu a maioria das autarquias, restava apenas a saída de Jardim para que o partido não se “afundasse” completamente com ele. Albuquerque foi a alternativa possível para os militantes do partido pois não só se distanciou de Jardim, como criticou o rumo das políticas despesistas e o autoritarismo do presidente do Governo Regional. Resta saber se ainda vai a tempo para recuperar o partido para as próximas eleições regionais.