Os recentes atentados terroristas em Paris, contra um jornal satírico, originaram duas ordens de reacções: uma essencialmente recuperando a categorização das religiões como «o ópio do povo», outra apelando ao proverbial «respeitinho» por tudo o que é «sagrado» … Se para uns a liberdade de expressão é uma espécie de valor absoluto, tão absoluto que se transforma quase num ‘não-valor’: num «buraco negro» que possibilita a irrisão completa e niilista de tudo em tudo, incensando o direito ao insulto gratuito e grosseiro ao ponto da mitificação, para outros o Status Quo vale por si mesmo, e é respeitável e conservável só pelo simples facto de existir … Devo dizer já que não me identifico com nenhuma destas visões. Ao contrário do que se poderia pensar, ambas relevam de uma mesma visão, de certo modo ‘materialista’. Se para muitos «pós-marxistas» e pós-modernistas tudo o que «cheira» a espiritualidade é para achincalhar, sendo tudo igualmente nulificável na mesma paisagem monótona relativista, onde só sobrevivem os seus próprios mitos políticos carcomidos quase completamente pelo Mercado e o seu Espectáculo. Para os fundamentalismos religiosos o que é mais sagrado não são os valores espirituais autênticos: a mensagem luminosa, fraterna e pacificadora que radica na essência mística do início de quase todas as religiões, mas sim as meras imagens e interpretações literais e superficiais (materiais) de pessoas, regras ou lugares. Os ídolos e profetas, as suas imagens manipuladas e manipuláveis, são, hoje, muito mais importantes do que as mensagens originais … Cada época histórica tem os ópios que merece! E hoje o niilismo relativista é também o ópio do povo. E todos os ópios estupidificam, ao ponto de só a violência aparecer como uma ‘religação’ a um estado essencial, intuído como demasiado longínquo … Era tão «religiosa» a fúria anti-espiritual dos revolucionários leninistas quanto é «materialista» e ‘espectacular’ a demência fetichista dos fundamentalistas islamitas (vide os lunáticos do Estado Islâmico). Algures, tem de haver a religação a ‘outros’ caminhos! …
Miguel Santos Cooperante da Cooperativa “Espaço às Artes - Cultura Ponto Zero”