Dia 20 de Janeiro passarão 41 anos sobre a morte deste dirigente africano que, com Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Nkrumah, Sekou Touré, Leopold Senghor e outros, marcaram, politicamente, África nos anos 60/70. Nascido em Bafatá transferiu-se com os pais para Cabo Verde. Aluno brilhante, atribuíram-lhe uma bolsa que o trouxe a Lisboa para o Inst. Sup. de Agronomia em 1945. Único aluno africano no curso, tornou-se notado pela afabilidade. O sonho do jovem, pelo qual lutará até à morte, é político. Os livros que lê, e, o ambiente que frequenta na Casa dos Estudantes do Império, levam-no a teorizar sobre a “cabo-verdianidade” e o regresso a África. Estes dois elementos, feitos fé, levá-lo-ão a consciencializar os Povos do espaço geográfico que, na expressão colonial, fora Guiné de Cabo Verde, para a luta de libertação nacional. Abandona uma promissora carreira de Agrónomo, pelo sonho político que, desde pequeno, estava para ele como a água para o peixe. Em 1962 inicia-se a luta armada. Assume-a, com sacrifícios tremendos para todos. O seu assassinato, por esclarecer, tem um trio de presumíveis autores: a PIDE; Sekou Touré que pretendia ser hegemónico na zona; dissidências no interior do PAIGC onde o líder avisara: “Ninguém mais pode estragar o PAIGC. Só nós”. Não lhe podemos perguntar se acharia que, 40 anos depois da independência, com que sonhara, as populações que nele acreditaram têm, hoje, melhores condições de vida. Arrisco dizer que Amílcar Cabral pediria desculpa por si e por uma elite sustentada, desde 1973, nas miseráveis condições de vida daquele Povo. Guiné de Cabo Verde não justificava a “cobiça colonial”, tinha riquezas escassas. A ideologia – na ausência do argumento económico - fez milagres. Deu consistência ao discurso de união daquilo que, a prazo, se viu não estar unido. Guineenses e Cabo-Verdianos tinham profundas divergências que, habilmente, Cabral, vivo, geriu 20 Anos depois de Cabral, um outro jovem oriundo de uma parcela do Território Nacional mais próxima da capital, chegou a Lisboa. Era Alberto João Jardim. Ao contrário de Cabral, ele aproveitara a maré alta da divisão do Mundo, entre comunistas e não comunistas, para criar uma Pátria, este jovem, posicionado no lado errado da história, não aceita a autodeterminação dos Povos. A vitória de Cabral fê-lo, oportunisticamente, mudar de posição. Cabral uniu Povos por um ideal, a conquista da Independência. O oportunista dividiu, um Povo que sempre estivera unido, em “cubanos” e “Povo Superior”. Numa cavalgada serôdia da onda de descolonização, cria o embuste que, apoiado na propaganda, engana muita gente. Finda a guerra a ajuda internacional aconteceu para o aproveitamento dos recursos guineenses. Aproveitando, habilmente, o período conturbado da descolonização, o falso líder reivindica milhões aos “cubanos”. Mantém esse discurso inócuo até hoje, perante a passividade de quem sempre soube que se fechasse a torneira o “império” caía e a garganta secava. Em 28 anos, Cabral conquista a Independência, objectivo para o qual, claramente, mobilizara combatentes. Hoje, as populações interrogam-se se terá valido a pena. Saúde, Habitação, Educação e Pão são mais escassos que no tempo colonial! As lutas de facção das elites pós-Cabral, levaram a isto. O objectivo de Alberto João, -Autonomia Total – nunca, claramente explicado, não foi, nem será, atingido. Neste início de Ano façamos votos para que, tendo Alberto João falhado o objectivo, as nossas elites também “falhem” o exemplo Guineense.
Gaudêncio Figueira