Quando me contaram, não acreditei. Quando insistiram, pensei que me gozavam. Até que ouvi e vi eu próprio. E pasmei. O ainda presidente do PSD-Madeira, acabadinho de ser democrática e alegremente substituído, teve o desplante de dizer aos microfones da televisão que o seu processo de sucessão está a correr como esperava. E ontem, em mais uma entrevista de fim de regime, aquele que um dia pensou que era o único importante falou do gozo que lhe dá sair quando quer e não quando os outros querem. Quem fala assim esquece que perdeu a toda a linha. Esquece que perdeu 7 das 11 Câmaras, que foi forçado a ir para congresso, que o candidato que apoiava perdeu à segunda volta e que se não apresentar a demissão do governo no dia 12 vai ser corrido logo a seguir até pelos deputados do seu partido. Quem fala assim deve pensar que voltou de mais uma longa viagem de Bruxelas e que na terreola não aconteceu nada. Mas aconteceu. Talvez ainda ninguém lhe tenha dito, mas sua excelência perdeu. E agora “é o elo mais fraco, adeus!” Aquele tipo de conversa fiada para telespectador ver mostra bem o ridículo da situação. Evidencia o carácter de quem pensava que era eterno e agora vê que chegou ao fim um longo reinado. Que acabou o tempo em que enganava quase todos. Que o vazio dos últimos anos só é preenchido pela enorme dívida que ajudou a esconder. Essa é uma das heranças que nos deixa, entre outros ‘tesourinhos deprimentes’ que um dia, mais depressa do que julga, farão corar de vergonha alguns dos que até agora diziam que o apoiavam, certamente porque se apoiavam nele. Também o Presidente da República voltou à televisão para a tradicional e despropositada mensagem de ano novo. Que de novo não trouxe nada. O teor do paleio presidencial foi mais uma vez em jeito de aviso para coisa nenhuma. Depois de quase uma década como inquilino do Palácio de Belém, o que Cavaco Silva tem para dizer aos portugueses é que devem pensar para lá das eleições. E acrescentou que já tinha dito algo semelhante em relação à troika. A Cavaco, como é evidente, não interessa falar do que poderia fazer e não fez, do tempo perdido com os seus discursos ocos e as birras infantis que ajudou a alimentar. O problema destas mensagens nem é conteúdo, ou a intenção. É mais por nos fazerem lembrar que o País e a Região estão como estão também por causa de figuras de Estado que se limitam a assistir em vez de agir. O importante é pensar no que virá depois das eleições, disse Cavaco. Desta vez vale a pena fazer-lhe a vontade e pensar no Portugal depois das próximas eleições presidenciais. Talvez nessa altura voltemos a ter presidente. E assim se resumem duas intervenções presidenciais. Um presidente que ainda não sabe que já deixou de o ser e outro que, de facto, nunca o foi. Juntaram-se os dois à esquina desta mudança de ano para falar ao povo. Resta o povo retribuir a mensagem com um sentido e caloroso “passem bem”. E depressa.