Charlie, lembram-se? Pois é, já passou tanto tempo! Quase quatro semanas! Uns lembrar-se-ão, outros não, é normal. É normal a memória esquecer o que a velocidade da informação actual se encarregou de colocar bem perto, mesmo que tão longe. Antofagasta, Chile, 8 de Janeiro de 2015, Rally Dakar. Aos poucos fomos tendo notícias da barbárie que foi vivida em Paris. As notícias correm rápido e, à medida que fomos interiorizando o horror do fanatismo que leva ao terrorismo, fomos também interiorizando que o terrorismo chega a qualquer parte do mundo, a qualquer parte onde o fanatismo lance raízes. 18:30 m, toda a caravana se juntou na zona central do acampamento onde o director geral do rali Dakar, Etienne Lavigne, apelou para que todos se juntassem num minuto de aplauso a todos quantos tinham perdido a vida no tão cruel e bárbaro ataque. E, de repente, o minuto tornou-se curto, a necessitar de mais minutos porque a vontade colectiva não queria deixar de ovacionar os inocentes, numa expressiva demonstração de solidariedade entre as 54 nações e países representados entre concorrentes e organização. Dias depois uma enorme manifestação levou mais de um milhão e meio de pessoas à rua, em Paris. O fanatismo leva ao terrorismo, mas de uma forma bem mais difícil de controlar. Mal comparando, se o fanatismo por clubes de futebol tem levado a fenómenos de violência entre adeptos e ao “hooliganismo”, com actos de violência extrema, chegando por vezes à morte, por maioria de razão, o fanatismo “religioso” a que temos assistido leva a uma forma diferente de “hooliganismo”, mais cruel e impessoal, que nos pode atingir a todos e a cada um sem distinção nem escolha. Enquanto as disputas de claques se confinam aos duelos entre eles, neste caso, atingem-nos a todos indistintamente. Os dirigentes mundiais deveriam, em vez de responder ao terrorismo, tarefa quase impossível como a História se tem encarregado de demonstrar, estudar, sem reservas de cariz religioso ou financeiro (a História aqui também tem demonstrado tratar-se de tarefa quase impossível) as causas que levaram a este fanatismo descontrolado e combate-las com eficácia (mas, infelizmente, isso significa combater interesses de poderosos para quem a vida de inocentes não são mais do que efeitos colaterais). Uma manifestação como a de Paris pode mostrar ao mundo a solidariedade por quem foi barbaramente assassinado, mas não vai ao fundo das raízes deste mal. No dia seguinte a grande maioria voltou à sua rotina diária, com um sentimento de ter participado numa manifestação anti-barbárie, mas sem nada fazer para alterar o mal já feito. Manifestaram-se de acordo com o pedido dos dirigentes políticos que necessitam deste tipo de demonstrações para aliviar as tensões internas, mas que em nada contribuem para a resolução do problema. Foram “Charlie” por um dia. Fomos todos “Charlie” por um dia, tranquilizámos a nossa consciência colectiva. Os que mataram, os terroristas, os fanáticos, convivem bem com uma consciência colectiva tranquila. Não os molesta nem os atinge, pois esta tranquilidade, sabem-no bem, é, tem sido, inconsequente. É necessário saber, estudar, conhecer em profundidade as causas deste “hooliganismo” de cariz “religioso” e combate-las com eficácia. Não com armas mas com mudanças profundas no relacionamento entre grandes potências e grande capital e os “coitados” a quem exploram sem dó nem piedade, com a eterna desculpa de que é para o bem deles. O bem deles sabem-no eles muito bem qual é, o que não quer dizer que seja o bem a que estamos habituados. A intransigência combate-se com conhecimento e instrução, com respeito pelos seus usos e costumes, mas com a exigência também de respeito pelos nossos costumes e pelos nossos usos, sem intransigência mas com firmeza. Encontremos pois muitos minutos para demonstrarmos que não temos medo do fanatismo que leva ao terrorismo, façamos força para que mudanças reais aconteçam, para então podermos dizer que somos “Charlie”.
Pedro Melvill de Araújo Médico