As maiores democracias da Europa, a Alemanha, França, Reino Unido e Itália, têm uma coisa em comum. Os países escandinavos também: os eleitores não querem dar todo o poder a um só governante, a um só partido, a uma só facção. Escolhem governos que são constituídos por diferentes forças partidárias, em que nenhuma é maioritária. Mesmo a poderosa Angela Merkel, temida em toda a Europa, não tem maioria absoluta e tem de negociar com os parceiros do SPD, com quem compartilha o governo.

Nos Estados Unidos há a tradição de dar a Presidência a um partido (Ex. Barac Obama) e o controlo do Congresso a outro partido (Republicanos). Já pensou por que razão esses povos fazem isso? Porque não querem por todos ovos no mesmo cesto?

Certamente que ao fazerem isso, a governação é mais fiscalizada, mais dialogada, mais consensual e mais participada, enfim mais democrática.

Os madeirenses habituaram-se a fazer ao contrário. A por todos os ovos no mesmo cesto. A dar sempre maiorias absolutas a um só partido, o poder a um só governante. A verdadeira pergunta que se coloca é: o que é que os madeirenses ganharam com isso?

Transparência? Nem por isso. Não existe mais nenhuma região europeia onde o governo pôde esconder uma dívida pública equivalente à riqueza anual total dessa região. Isto sem que a sua Assembleia ou os cidadãos soubessem. E só souberam quando uma tal Troika estrangeira veio à região para “limpar a casa”.

Tolerância? A generalidade da administração pública é dominada por um aparelho partidário, do director de serviço ao chefe de secção. Em que ter mérito vale … quase nada. Em que comungar com a oposição é expor-se a doença leprosa e altamente urticante.

Rigor? Em que muitos concursos públicos estão previamente destinados, com cláusulas abusivas. Em que a economia tende a ser monopolizada por Barões, Duques e Viscondes do regime, para mágoa da concorrência e da competitividade da Madeira.

Prosperidade? Ao fim de 25 mil milhões de euros enviados da Europa, da República já ter “zerado” a nossa dívida, surgiu uma nova dívida que, a ser paga neste ritmo, será liquidada em 80 anos. Com os 23.000 desempregados, os muitos emigrados e outros tantos desalentados, o que é, apesar das obras feitas, a prosperidade de uma terra?

Quando há uma maioria absoluta, o poder que um voto tem para influenciar as decisões do governo tende a expirar no dia seguinte à eleição.

Os lobbies querem, a ideologia exige, o governo decide, está decidido!

Provavelmente se o PSD nacional tivesse a maioria absoluta na República, Vítor Gaspar ainda hoje seria o Ministro das Finanças.

Para os madeirenses voltarem a ter nas mãos o poder do seu voto, têm de fazer duas coisas: primeiro, “roubar” aos políticos a previsibilidade desse voto e, depois, castigar quem abusou da confiança do povo, em especial a meio dos mandatos. Se assim fizerem, poderão dizer, Je suis Transparence, Tolérance, Rigueur, Prospérité, Je suis Démocratie e, quem sabe, Je suis Charlie!

Mário Pereira