Passados catorze anos de divulgação dos rankings das escolas pouca evolução houve deste instrumento medidor da qualidade do sistema educativo e da própria utilização dos dados para que se verificasse, após este tempo, melhorias significativas. Considerando que o desfasamento entre os níveis de escolarização e as taxas de abandono escolar dos portugueses e os dos nossos parceiros europeus persistem, teremos que repensar que utilidade dar a este instrumento e de que modo poderá servir para uma efetiva melhoria de todo o sistema educativo.
Ainda antes de se publicarem os rankings, as escolas já analisavam os resultados da avaliação interna e externa, no sentido de se organizarem e definirem as melhores estratégias e medidas a adotar com o objetivo de melhorar não só os resultados escolares, mas sobretudo visando o desenvolvimento dos seus alunos nas diversas dimensões que a educação e a escola assumem.
Isto para dizer que, a partir da publicação dos rankings, a discussão centrou-se na avaliação de resultados académicos, deixando-se de lado a dimensão humana, que é central na escola, levando mesmo muitas escolas a se focalizarem nos exames e não tanto nos processos educativos ou no desenvolvimento integral dos jovens.
A título de exemplo, algumas das escolas pior classificadas tinham elevada taxa de abandono escolar e agiram no sentido de trazer de volta os alunos, tendo sido bem sucedidas. Mas implicou que, com o regresso desses alunos, a taxa de insucesso da escola aumentasse.
Não serão necessários estudos muito aprofundados para demonstrar o quão redutor é utilizar os resultados de exames para avaliar o nível de sucesso das escolas. Ou seja, na avaliação interna há muitos elementos e variáveis que são considerados, mas que não são tidos em conta na avaliação externa.
Seria expectável que o governo se servisse destes estudos contabilísticos dos resultados escolares para apoiar as escolas com piores resultados académicos, apoiando-as, dando-lhes condições para ajudar as crianças e jovens a superar as suas dificuldades. Ao invés, este governo atribui financiamento e créditos horários às escolas como modo de recompensa pelos ganhos obtidos. Por um lado, o apoio é anual e premeia uma dada melhoria pontual; por outro, deixa de lado o mérito de escolas que vão melhorando progressivamente o seu desempenho, mesmo em contextos difíceis e fruto de estratégias pedagógicas sustentadas ao longo de anos de intenso trabalho.
Então para que servem os rankings?
Servem para aferir o desempenho académico dos alunos nas disciplinas de exame;
Servem para introduzir a lógica de mercado na educação, acrescentando um fator competitivo e individualista, que acentua mais as desigualdades;
Servem para justificar o despedimento de milhares de docentes;
Servem para promover o ensino privado;
Servem para, a longo prazo, esvaziar a escola da sua diversidade sociocultural, relegando-a para as crianças e jovens menos favorecidas e com caraterísticas que não cabem nas escolas privadas, levando à estigmatização de escolas e alunos;
Servem para reduzir o financiamento das escolas e o crédito de horas.
Mas servem sobretudo para o governo justificar as investidas contra as escolas da rede pública, descartando-se de encargos e responsabilidades.
Por este caminho as escolas ainda se desumanizam.
Sofia Canha