Os promotores regionais de eventos culturais, e sobretudo na área da música de alguma qualidade, de certeza que se recordavam, ao longo dos últimos anos, do tempo das “vacas gordas”, sensivelmente uma década e mais atrás, quando os concertos enchiam, ninguém questionava o preço dos bilhetes e o futuro parecia prometedor.

“Enriquecidos” pela experiência que a reviravolta da economia europeia e portuguesa nos concedeu, e que ainda tivemos que pagar, foi provavelmente com muita nostalgia que se lembravam de tais tempos e com muitas incertezas que olhavam para frente. Claro que, numa ou outra ocasião especial, os auditórios enchiam (e quanto mais “aligeirada” a experiência artística, tanto mais enchiam) mas isso servia mais para confirmar a regra. Uns anos atrás, até os visitantes de países bem mais afluentes que o nosso, começaram a queixar-se dos preços dos bilhetes, inferindo que “aqui” (à beira da África, deve ser?) os preços dos bilhetes deviam ser bem mais baratos do que “ali”, nos países deles, onde para a mesma experiência pagavam o triplo sem abrir a boca. Como se o mesmo artista aqui valesse menos do que ali?

De qualquer maneira, o mercado cultural foi-se adaptando e sobrevivendo, mas cada vez menos capaz de se auto-sustentar e pensar o seu futuro, e cada vez mais tentando sobreviver um dia de cada vez. Até que...

A esperança é a última que morre e quem a conseguiu manter e alimentar, agora talvez vai começar a sentir algo diferente nos ares culturais: quem seguiu os últimos concertos de música erudita, sobretudo os, promovidos pela ANSA, deve ter reparado nas enchentes constantes que já há muito tempo não se registavam nos eventos deste perfil. E essa mudança, não só do clima cultural mas também do espírito dos consumidores, e o regresso da vontade de investimento em conteúdos enriquecedores mas não fulcrais para a actividade de um turista, faz crer de que, muito gradualmente, a tendência negativa dos últimos anos ir-se-á inverter e faz esperar de que essa confiança regresse também ao público regional.

Robert Andres