Por todos os domingos com falta de assunto, lá chegou um com três. A ver se vamos ligeiros e se cada frase é uma seta. Ser Charlie é simples Semanas depois, há quem ainda não tenha percebido. Ser Charlie não é exercer a liberdade de expressão como um pirómano exerce a gasolina. Não é por sistema “exagerar o ódio à Divindade e a toda a Ordem Social: querer o massacre das classes médias, o amor livre das ficções do matrimónio, a repartição das terras, e o culto de Satanás”. Isso é ser João da Ega.
Ser Charlie é, claro, concordar com a natureza fundamental da liberdade de expressão. Mas é também acreditar no Estado de Direito. Quem nos ofende deve sentar-se diante de um juiz, não diante do Sr. Kalashnikov (sempre tão fácil de ofender e pronto a julgar). Para o tanto que se falou, pouco nisso se falou – pouco se falou na vida. Os cartoonistas não foram só silenciados. Morreram. Morreu o seu traço, o seu sentido de ironia, o seu humor, os seus amores, as suas famílias e amizades – morreu o universo que os distinguia e tornava insubstituíveis e dignos. E procurou-se, com eles, matar o mantra humanista de que o sagrado é privilégio do indivíduo, e que nenhum homem é prerrogativa do poder sagrado ou secular.
Diante do mais preciso e metódico ataque às raízes da nossa civilização, há sempre quem complique – quem, a título de reserva, resolva apontar para umas folhas feias e para uns ramos podres, enquanto colhe seguro os frutos da árvore antiga e ferida. É normal. Mas também triste. Je suis Charlie. O Eu, o Não-Eu, e o Eu Não Numa conferência a que assisti, um reputado jornalista justificou filosoficamente a queda do Semanário “O Independente”: o “Eu” do Independente seria recortado a partir do “Não-Eu” Aníbal Cavaco Silva. Com o desaparecimento do “Não-Eu”, o Independente terá perdido a sua identidade e razão de ser, e submergiu com o seu “Não-Eu” como um siamês.
Isto pareceu-me justificação filosófica para muita coisa. Na Madeira, com o PSD renovado, a oposição parece ainda obcecar com o seu “Não-Eu”. São lideranças, estilos, estratégias e personalidades construídas em torno de “o Jardinismo”. Mas Jardim sai, e com ele a imagem e símbolo máximo dessa doutrina. Quem existia por referência a essa marca e mitologia está condenado, primeiro, a uma luta quixotesca com um “Não-Eu” fora de palco, e, segundo, a acompanhá-lo no regresso aos bastidores.
Por mim, tenho pena. A Madeira precisa de estar no seu melhor, e o melhor de cada um aparece na face do desafio e da concorrência. De onde se esperava uma reacção, houve apenas “Eu não”. Cristiano Ronaldo Um homem para quem faltam as justificações filosóficas. Cristiano também teria uma sombra, um “Não-Eu”. Por cada dia passado à volta da bola em Santo António, a sombra foi sorver chupa-chupas e trincar os primeiros cigarros. Por cada cerrar de punhos na Academia do Sporting, a sombra foi em lágrimas pedir o regresso. A cada derrube, a cada embate com o gozo e a lama em Manchester, a sombra fraquejou. A cada negação do talento ou insensibilidade aos resultados, a sombra perdeu fulgor e empenho. Mas Ronaldo nunca cedeu à sua sombra. Na sombra dele vivem os restantes de nós, os milhares e os milhões que muito humanamente fraquejam perante obstáculos servidos como regras da natureza. Aquele rapaz carrega as divisas da superação e transcendência por força da mais pura e absoluta vontade. Carrega-as em nome dos que ficam nos Santos Antónios, nas Academias, nas lamas desta vida. Não o faz por eles – faz por ele. A esperança é essa – querer vale muito, independentemente de todo o horrível e improvável resto. Chamá-lo madeirense é honra nossa, não dele. Que ele próprio não pense o mesmo, é só mais um milagre.
Pedro Fontes