Estamos em fim de ciclo político na Madeira. Todos os quadrantes o apregoam. Três momentos cruciais a ter em conta para os tempos próximos na nossa terra.

1. Atenção à pobreza e à educação. Sim, estas duas vertentes que se conjugam entre si como se de uma aliança se tratasse.

Por um lado, a pobreza que não parece encontrar travão. Falta pão sobre as mesas de várias famílias onde o desemprego bateu à porta e não encontram quase nenhuma ajuda das estruturas governamentais a quem compete estar vigilante perante as situações mais prementes do nosso povo.

Por outro, atenção à educação. Há crianças com fome de pão, mas também têm fome de educação. As escolas estão sujas, violentas e sem respeito. Falta-lhes pessoal e o material suficiente para fazer funcionar com dignidade as escolas.

Mas, a par desta chamada de atenção sobre a educação e da pobreza, salta-nos à vista a saúde do nosso povo. Tem havido uma enorme mortandade, que vai levantando sérias suspeitas, porque, parecem derivar da falta de condições materiais e humanas e de alguma confusão no que diz respeito aos serviços de saúde na nossa terra. É preciso atenção a esta fome, porque é um bem elementar e quando não cumprido estamos perante uma grave violação dos direitos humanos universais. E são incalculáveis os danos humanos e sociais quando uma sociedade perde a confiança nas suas instituições de saúde.

2. A sociedade madeirense viveu tempos de hegemonia, sob um pensamento único a todos os níveis, o que provocou uma retração na criatividade e na livre expressão das ideias, elementos essenciais para que aconteça diálogo e abertura saudável à diferença. O diálogo é a expressão culta e civilizada de uma sociedade.

Há muito tempo que não temos esta realidade. É preciso não descurar este elemento e incentivar o diálogo, o debate culto e civilizado entre todas as forças que compõem a nossa sociedade madeirense.

Tudo o que foram instrumentos que fomentaram o insulto, a devassa da vida privada e os apelos à discórdia precisam de ser expurgados e se for possível chamar à razão quem alimentou e bateu palmas a essa forma de fazer política. Os tempos são outros e precisamos de uma viragem que nos reconcilie e todos juntos façamos erguer uma sociedade madeirense solidária e fraterna. Este é meio caminho para o sucesso e para a paz entre nós.

A política regional a todos os níveis está ferida porque perdeu a credibilidade, por isso, aos que se achegam para o serviço do bem comum, façam-no com seriedade, com altruísmo e espírito de serviço. É preciso rebentar com a ideia prestidigitadora de que se muda tudo para ficar tudo na mesma e não bastará presentearem-nos com nova roupagem política, se o que se vê não passa depois de reles e incómodos rostos reciclados.

3. O propalado milagre da Madeira não passou de uma singela transformação. A vida em geral mudou numa primeira fase. Mas podia ser melhor ainda para todos. Se, por um lado, crescemos em muitas infraestruturas, que foram revelando o sucesso aparente, por outro, pouco ou nada se fez para rebentar com as desigualdades, pelo contrário, parece que se acentuaram.

O nosso povo habituou-se a viver com a dádiva, tudo era oferta, mesmo que tal fosse um direito e derivasse do seu trabalho recolhido em impostos. Um povo assim educado, vivendo da dádiva deu lugar ao clientelismo político. É preciso deitar por terra esta ideia tão cerceadora da liberdade e da autonomia das pessoas.

Precisamos de um povo adulto, civilizado e culto. Precisamos de uma cidadania transparente e repleta de honestidade, para que este clima constante de suspeita sobre uns e outros tenha fim à vista. Por isso, precisamos também de desenvolver as virtudes do amor, a compreensão, o respeito, a benevolência e a compaixão contra todas as formas de prepotência e o dizer mal uns dos outros de forma insultuosa.

A Madeira reclama honestidade e transparência. Já sei do madeirense sério e honesto que não guarda rancor, não é vingativo, porque não se fixa nas ofensas recebidas, não reabre as feridas, não se irrita, mantem a compostura e continua a vida com toda coragem e fé.

José Luís Rodrigues