De um momento para o outro, a Madeira acordou a saber que a austeridade vai continuar até ao fim do ano. Que o Plano de Ajustamento Económico e Financeiro (PAEF) fica em vigor até ao final deste ano. Que a tão propalada autonomia aguarda mais 12 meses numa gaveta de Lisboa, onde o Governo Regional a deixou quando foi apanhado com a dívida escondida. Foi no passado domingo, quando o DIÁRIO tornou público o relatório do Ministério das Finanças, que se ficou a saber da prenda que este governo nos reservou para o fim (e não vai ser a última). Em segredo, no meio de tantos outros segredos que começam a ser revelados, o governo decidiu pedir para prolongar as dificuldades que derramou sobre os madeirenses. E quando o segredo foi descoberto, a solução foi acenar com o dinheiro. O dinheiro dos outros, como sempre gostou de fazer quem nos governa. Desta vez, foram os 320 milhões que estavam por gastar. Sim, foi essa a justificação para se continuar neste aperto em que vivem cidadãos e empresas nos últimos anos, gastar! Foi a possibilidade de gastar mais 320 milhões que fez o governo pedir para manter a austeridade. A mesma austeridade que o mesmo governo tanta vezes apontou como um obstáculo de Lisboa, uma imposição, um castigo. E o governo, em vez de dizer ‘já chega!’, acabou por pedir mais. ‘Mandem mais dinheiro que alguém vai pagar’. Afinal, foi sempre essa a grande linha orientadora da governação madeirense. Pedir para gastar. Independentemente do bom uso que possa ser dado ao dinheiro que ainda aí vem, a questão que se coloca é sobretudo política. É a mesquinhez de esconder um acto de gestão com graves implicações bem para lá do fim do mandato de quem dá as últimas no governo já demissionário. É comprometer o futuro para acautelar uns quantos interesses do tempo presente. E quase tão grave foi a justificação pública, afirmando que “estava implícito” que seria assim. Como se um contrato com a dimensão daquele a que a Madeira se submeteu fosse feito com base no implícito, no improviso, no logo se vê. A única coisa de implícito que tem essa desculpa esfarrapada é o governo ter a certeza de que grande parte dos madeirenses já só pensa na tolerância de ponto do Carnaval. Segundo percebi, entre outras coisas alegam os responsáveis pela brincadeira que a ideia é usar mais dinheiro por mais tempo e em melhores condições de crédito. Tem graça. Há menos de um mês ouvi uma conversa semelhante. Era de um banco a tentar convencer-me, ao telefone, das vantagens de um crédito que eu não pedi. E a senhora a insistir que eu devia ‘aproveitar’ pois tratava-se de uma promoção com taxas de juro muito boas e que muita gente no meu lugar aceitaria. E acrescentava exemplos do que eu podia fazer com dinheiro que não era meu. Depois pagava, com calma. Recusei mas desconfio agora que foi essa mesma senhora que telefonou nos últimos anos repetidas vezes aos senhores do nosso governo. Até deve ter usado a mesma lengalenga: “Olhe que deve aceitar; que isto é uma promoção e apareceu o seu nome; que é dinheiro que fica disponível rapidamente; que outros nem pensariam duas vezes”. E também desconfio que os nossos governantes aceitaram as ‘ofertas’ sem fazer grandes contas. O dinheiro não era deles, as dívidas não são deles. Apenas decidiram em nosso nome porque precisavam e precisam de dinheiro como nunca. Os madeirenses é que não precisavam de tanto calote e dispensavam a surpresa de mais um ano austeridade.