Conforme o habitual, os políticos lavam as mãos de assuntos delicados denominados “causas fraturantes”. Algumas alterações no sistema eleitoral, sobretudo na aproximação do deputado aos seus reais eleitores, perderiam poder as oligarquias partidárias, “cinzentos donos” das consciências dos deputados, quais maestros, de batuta em punho apontam a nota e o tom de voz que lhes convém. A isto chamam disciplina de voto. E lá vão alegremente falando (poucos) e rindo (muitos) na Assembleia da República. Assim, como aceitei aprovações de alterações de leis que regem a sociedade, terei de respeitar, embora não concorde, a decisão da Assembleia de República de chumbar o diploma “adoção de crianças por casais do mesmo sexo”. No entanto, a decisão tomada não impede a mim ou qualquer cidadão no uso da liberdade de expressão e de pensamento, de emitir opinião sobre a matéria em questão. Provavelmente os responsáveis e defensores da decisão tomada serão os primeiros a “rejeitar” a possibilidade de virem a adotar uma criança abandonada. Cantam Laudes á instituição familia como a grande fortaleza capaz de conduzir a sociedade a valores morais relevantes, mas hipocritamente, condenam crianças ao abandono retirando-lhes a esperança, impedindo a vontade e o direito de atingirem essa fortaleza. Com este chumbo, os decisores tornaram-se proprietários do destino e da vida de crianças marginalizadas. Esquecem que a adoção não é dar uma criança a uma família mas, sim, dar uma família a uma criança. “O diploma é um atentado aos direitos das crianças?” disse um responsável. Quando é notícia que 1 em cada 4 crianças em Portugal vive abaixo do limiar da pobreza, potenciando o trabalho infantil e estes Senhores barram a porta de uma casa de família cheia de carinho, segurança e dignidade não é um atentado aos seus direitos? Que hipocrisia meu Deus. Ouvi uma deputada dizer “a aprovação do diploma seria tirar a possibilidade de uma criança poder ser adotada, mais tarde, por um casal normal”. Quem lhe deu esse poder de distribuir crianças? Tem a certeza que há mais dignidade, respeito e amor num casal hetero? As águas de um rio não passam duas vezes debaixo da mesma ponte. Deixe as crianças aproveitarem as poucas oportunidades de serem felizes. Perante a incapacidade, já demonstrada, de quem tem as rédeas executivas deste país de solucionar os graves problemas sociais desta faixa etária, seria inteligente, bom senso e grande responsabilidade que os políticos não atrapalhassem a boa vontade e o voluntarismo da sociedade civil em ajudar a resolver o problema. Perdeu-se mais uma oportunidade. Tal como o filme de Warren Beatty e Julie Christie, também para estas crianças “O céu pode esperar”. Só que na comédia americana Warren morre e reencarna num milionário, aqui as crianças vivem com sobejos de pão e de amor.
Francisco Costa Técnico de arbitragem