Primeiro New York. Depois Londres. Madrid a seguir. Agora Paris. Eis a escalada do terrorismo com incidência europeia pós 11 de Setembro. Paris, agora, atingiu uma expressão distinta dos atentados anteriores. Enquanto New York se distinguiu pela espectacularidade dos meios utilizados e dos alvos atingidos, Paris teve a marca de uma clara economia de meios. Um escasso número de operacionais utilizados e a marca, segundo observadores, de um profissionalismo que não se observa noutros atentados que visam alcançar o mesmo objectivo. E foi nos objectivos da sua acção terrorista que este comando marcou a grande diferença. Enquanto New York, Londres e depois Madrid tiveram a atenção centrada em meios de comunicação aéreos e terrestres, em Paris o alvo foi um semanário satírico designado por Charlie Hebdo. E é aqui que reside a grande diferença. Vale principiar por dizer que o alvo escolhido nada tem que ver com a grande Imprensa francesa onde se encontram alguns dos grandes bastiões da comunicação social europeia. Contrariamente a alguns desses grandes títulos, o Charlie Hebdo, que aparece nas bancas com frequência semanal e que á data do atentado andava por uma tiragem média de três mil exemplares por número, atravessava uma situação financeira que o situava longe dos seus melhores tempos. E mesmo em termos de qualidade já vivera períodos bem melhores. Acresce que os seus cartoonistas, que têm algumas vezes alvos privilegiados, haviam ultimamente satirizado Maomé através de caricaturas. O que despertou a ira dos seguidores do profeta tal como já havia acontecido num passado recente. A redacção do semanário estava sob ameaça e alguns dos seus principais responsáveis achavam-se ameaçados de morte sendo guardados á distância por forças policiais. Por isso o que acabou por acontecer no dia 7 de Janeiro não foi exactamente inesperado, não obstante não ser talvez previsível a violência utilizada, que essa sim excedeu aquilo que constituíam os mais avisados receios. Um aspecto, todavia, não é possível perder de vista: a amplificação que o facto conheceu, o repúdio q ue a acção terrorista suscitou e de que o audiovisual se deu conta sob a forme de una firme condenação, muito embora constituam o melhor e a mais eficaz forma de divulgação com que o comando terrorista podia contar. Como arma de propaganda excedeu tudo com quanto era legítimo admitir-se. Mas um outro aspecto avulta que não decorre do tipo de considerações que vêm aqui a alinhavar-se: a questão do respeito pela liberdade de expressão. Com efeito, o que sempre esteve subjacente em relação a este atentado foi a questão da liberdade num dos seus pilares essenciais: a liberdade de informar e de ser informado. Ao decapitar, conforme decapitou, o Charlie Hebdo, foi isso o que o comando terrorista atingiu com um golpe certeiro, que, dada a natureza do alvo escolhido, teve uma amplificação que excedeu tudo quanto seria razoável admitir-se. E isto, tudo isto, vem suscitar uma questão em que está sempre a tornar-se ao princípio: deverão ser impostos limites á liberdade de expressão, ou, postas as preocupações de que decorre, conterá ela um carácter absoluto em si mesma? Não seria desejável e seria mesmo perigoso que o contivesse, sendo esse, de resto, um dos aspectos que mais preocupações tem suscitado. Vozes autorizadas como a do Papa Francisco já convocaram as atenções para esse aspecto. Para o facto de confissões religiosas que não só no que respeita á adesão de prosélitos foram capazes de merecer a mesma tolerância e respeito que as demais. Á liberdade de expressão há limites impostos e um deles é o respeito por quantos não assumem as mesmas convicções. É nessa tolerância que reside uma das regras essenciais da democracia. A crítica e a discordância são legítimas como forma de combater posições que não confluam com aquelas que sustentamos. A ofensa não!
Carlos Sequeira