Ao ler as notícias relativas aos acontecimentos do último fim-de-semana, não consegui deixar de (tentar) cantarolar “hurry, get on, now, it’s coming/Listen to those rails a-thrumming (All Aboard!/Get on the A Train/Soon you will be on Sugar Hill”. O clássico de “Duke” Ellington, cantado pela Ella Fitzgerald, poderia ter sido a banda sonora do congresso do PSD-M, tal a quantidade de gente que tentava apanhar o novo comboio, mesmo com ele já em andamento. Não me interessa questionar a legitimidade dos passageiros de última hora, nem é sobre isso que escrevo. Interessa-me pouco o percurso que a atual maioria fará, mesmo sabendo que promete respeitar a normalidade democrática. Há quem aplauda esta nova atitude, esquecendo-se de que o respeito pela normalidade democrática não merece aplausos, sendo apenas o cumprimento de um dever de todos os agentes políticos. Não excede expectativas. É o cumprir das legítimas expectativas dos cidadãos. Interessa-me mais a reação da oposição e dos madeirenses. A primeira poderá cair na tentação de fazer uma espécie de tiro ao alvo, tendo por alvo o “Miguel”. Se o fizer, incorre num erro que custará mais 20 anos a pregar aos peixes. Só um combate firme, mas com base em ideias e propostas, poderá derrotar o PSD-M. Um combate feito na rua, junto dos cidadãos, visando esclarecer, motivar, envolver. Posturas que denotem nervosismo excessivo estão para estas eleições como as posturas elitistas costumam estar para todas as eleições: são contraproducentes. Aos gritos não se vai lá, da mesma forma que a partir de pedestais (sejam eles verdadeiros, ou meramente ilusórios) não se chega àqueles que efetivamente detêm o poder, os eleitores. Um dos maiores segredos de Alberto João Jardim é conhecer o povo madeirense como poucos porque, na prática, faz parte desse mesmo povo, conduzindo a sua ação através um guião alimentado e que se alimenta das idiossincrasias locais. Há que imita-lo, indo ao encontro dos cidadãos. Mas há também que estabelecer a diferença, apresentando ideias, ouvindo e dando bons exemplos. É imperioso incluir nesta estratégia aqueles que têm capacidade para, repito, esclarecer, motivar, envolver, e aqueles que deem - ou que tenham dado - exemplos de desapego e de entrega à causa pública. Posicionar-se como “salvador da Madeira” é outro erro. A capacidade de salvar a Madeira é dos madeirenses e ao Governo é exigido, sobretudo, que crie oportunidades, preferencialmente iguais para todos, que facilitem a vida aos verdadeiros salvadores. Finalmente, interessa-me a reação dos meus conterrâneos a tudo isto. Cairão eles na tentação de dar uma nova maioria absoluta a um só partido? Muito sinceramente, não me parece que o queiram fazer. Mas terá de ser a oposição a demonstrar, com atos, que merece um voto de confiança. Eu acredito que há tempo e que há capacidade para isso.
Gonçalo Santos