A Madeira está a inaugurar um novo ciclo da sua autonomia. Encontra-se perante um momento crucial, de mudança, o que acarreta naturalmente uma nova esperança em relação ao futuro. Durante três décadas a Região esteve associada a um estilo de governação que se esgotou há muito e que se revelou pernicioso em muitas áreas. Muito foi feito e bem feito, mas perderam-se anos determinantes no desenvolvimento sustentado e integrado da Madeira no seu todo, com muitas obras sumptuosas, de utilidade duvidosa. Depois de uma luta feroz no interior do PSD/M, parte da transição – a mais importante – está feita. Quem manda agora no partido tem outro perfil, marcadamente mais urbano, moderado e educado. Tem uma forma de estar na política que se situa nos antípodas do antecessor. Miguel Albuquerque tem conseguido unanimidade em questões fundamentais, designadamente na moralização da vida política regional e na valorização do papel da Assembleia Legislativa. O antigo presidente da Câmara do Funchal vai partir para a campanha que se avizinha com a máquina eleitoral oleada, fazendo da sua moção de estratégia a base do futuro programa de governo. Apesar de ter nascido e servido ao lado de Jardim durante muitos anos, Albuquerque está a conseguir fazer passar a mensagem de que vai dar corpo a um novo partido, respeitador das regras e do jogo democrático. De facto a Madeira viveu tempo demais à margem de um sistema “normal”, vigente no continente português e nos Açores. Jardim pôs e dispôs a sua bel-prazer durante todo o seu consolado, fazendo tábua rasa do parlamento regional, dos direitos da oposição, da liberdade de expressão e de regras tão basilares como a de aplicar o regime de incompatibilidades aos detentores de cargos públicos na Região, permitindo uma vergonhosa acumulação de vencimentos e reformas, sendo ele um dos seus beneficiados. Para além da monumental dívida financeira que deixa como pesada herança, Jardim foi longe demais ao tentar, a todo o custo, blindar e condicionar a própria forma de pensar do madeirense, recorrendo a uma prática discursiva agreste e provocadora contra “Lisboa, a maçonaria” e outros “poderes ocultos” numa guerra de berros, que se tornou patética e ultrajante. Com um único objetivo: continuar agarrado ao poder. A Madeira precisa agora de uma nova roupagem, de uma nova forma de se apresentar, de se promover, de se dar ao respeito, consubstanciada numa ação que fomente a inclusão e que não exclua os que pensam de forma diferente. Mas cuidado, só estilo e boas maneiras não são suficientes. Este novo PSD deve ter uma matriz própria, autónoma e não ser uma caixa de ressonância da liderança nacional. Dentro de dois meses haverá eleições. Não se percebe ainda muito bem o que pretendem fazer os designados partidos de esquerda. Uma evidência sobressai: o Partido Socialista parece não ter aprendido nada durante estes longos anos do “jardinismo”. Se mantiver a teimosia de candidatar o seu atual líder não terá a mínima hipótese de chegar ao poder, por mais que se vanglorie com os louros da vitória do movimento “Mudança” na Câmara do Funchal. Por muita ambição que possa ter Victor Freitas, falta-lhe o carisma necessário para o tamanho desta empreitada. Ou rapidamente os partidos da esquerda encontram uma figura consensual e com provas dadas ou o PSD de Albuquerque vencerá as eleições. Com ou sem maioria absoluta. Tudo é possível e no segundo cenário o CDS será o fiel da balança. Importante neste momento é que se apresentem programas válidos e realistas, protagonizados por pessoas de mérito, despegadas das máquinas partidárias, com ideias sólidas e vontade de servir. A renovação da nossa terra passa, em primeiro lugar, por aí, expurgada a “tralha jardinista” que se eternizou nos lugares de topo.

Roberto Ferreira