Severino Olim Sei que não irias gostar deste tributo publico, profundamente sentido e tão natural como as flores do teu quintal a quem dedicaste, enquanto podias, uma sublime atenção. Lá no fundo da nossa cumplicidade tenho a certeza que me perdoas, porque o teu exemplo de uma mãe incansável, lutadora e corajosa fala mais alto do que qualquer atitude de silencio que poderia vir a tomar. Contavas, vezes sem fim, que nasceste, cresceste e tornaste-te numa mulher marcada pelos ricochetes das crises que sempre te acompanharam pela vida fora. Falavas dos Natais da tua infância, daquela noite de Natal que não conseguias dormir porque a fome não te deixava adormecer e o avô, em plena noite, desanca do saco das sementeiras algumas favas secas que em lume brando cozeu para matares a fome. Choravas, porque gostavas ir à escola com a tua vizinha mas faltava o dinheiro para a compra da pedra, coisa que os teus pais não tinham maneira de te dar para apreenderes a conhecer as letras e os números essenciais ao desenvolvimento integral de qualquer criança. A tua escola foi sempre arquitetada nas dificuldades da vida que te transformou numa professora de eleição. Contavas, que amanhecias na serra à busca de lenha que a transportavas à cabeça até a vila de Machico, a fim de a trocares por farinha de milho ou pão, tarefa essa que nem sempre era bem concedida, proporcionando maior desespero e fome em casa dos avós. Conheceste o rosto de diversas crises, uma autentica cruzada, contra o desespero, o desanimo e contra a liberdade dos teus pequeninos sonhos. Contudo, já em adulta, nunca deixaste de acreditar no teu projeto de família o qual, junto com o pai, se tornou numa construção bem urdida, assente em valores que nos transmitiste em todas as fases da nossa vida. Recordo-me da tua cestinha que levavas ao dispensário com os nossos boletins de saúde, cheia de ansiedades e de pedaços do teu coração despedaçado. Vezes sem fim, fazias esta caminhada, descendo e subindo a pé a estrada sinuosa que ligada a Ribeira Seca ao centro da vila Machico onde procuravas o único médico aí existente, um filho da Terra, para contornar os nossos sarampos, gripes e outras doenças que nos deixavam quase sempre de rastos. Já, com a vida mais estável, sobrevoaste, algumas vezes, o oceano atlântico rumo ao Brasil e à Venezuela sempre numa alegria contagiante em visita aos teus netos(as) e filhos(a) mais velhos. Eras recebida em festa por toda a família, que em Terras de Vera Cruz encontrou outras condições de vida que a Madeira lhes negava. Alegria essa, que vivias intensamente, aquando das tuas deslocações a Terras de Sua Majestade: cidade de Londres onde os teus netos jamais te apagarão esses momentos dos seus corações. Bateste-te, corajosamente contra as tuas doenças que, nesta ultima década, de ano para ano fragilizaram o teu estado de saúde. Contudo, o caminho que sempre decidias seguir era a via da coragem e da persistência em busca de melhor qualidade de vida. Obrigada, mãe, por mais essa lição de tenacidade e de determinação que acabas por nos deixar. Na tarde deste domingo os teus 14 filhos, noras, genros, netos, netas, bisnetos, bisnetas, trinetos, irmã, sobrinhos, sobrinhas, primas, primas, amigas das tuas caminhadas na levada, vizinhos, vizinhas e restante família ausente pela epopeia da nossa conhecida emigração vamos arriar a tua bandeira de vida, dobrando-a com todo o pesar e doce carinho ao som da cândida ternura e da pesada saudade que deixas nos corações. Descerás à terra fria, como assim dizia, mas o teu memorial subirá ao topo dos tempos, às primeiras páginas do livro da tua vida cheio de testemunhos e exemplos de como contornar as dificuldades que sempre acontecem na estrada da vida. Mãe, que descanses para sempre no aconchego dos braços da tua fervorosa fé. Por fim, sei que gostarias de agradecer às tuas filhas e noras e netas que te prestaram tanto carinho e extrema dedicação, nomeadamente nestes últimos tempos. Aos bombeiros municipais de Machico e do SESARAM, a família agradece e enaltece publicamente o profissionalismo e o empenho prestado nos serviço a que foram solicitados. Um reconhecido obrigado.