Há coisas que não se compreendem facilmente. Uma delas é a atitude da generalidade dos partidos da oposição na Madeira. Durante meses fizeram-se de mortos e quando saíram à rua passaram entre os pingos da chuva. Recusaram intrometer-se na luta que durante meses, ou anos, agitou o PSD. Que não era nada com eles, que eram coisas internas e outras balelas. Como se o PSD não fosse o partido que manda na Madeira há 40 anos, como se o PSD não fosse o partido do governo, como se grande parte do PSD não fosse o governo. Passaram meses a ver o circo a arder, acreditando que quase tudo se reduziria a cinzas. Aplaudiram as tiradas mais polémicas e agressivas entre os candidatos à liderança dos social-democratas. Divertiram-se com as acusações e as insinuações que os delfins faziam entre si. E com tanta fartura esqueceram-se de ser oposição. Pior: assistiram de forma impávida à mudança que se foi operando aos poucos na velha máquina laranja. E até aposto que gostaram quando viram o PSD usar alguns dos principais chavões que a oposição sempre usou. Sentiram-se reconhecidos, talvez mesmo gratificados. Por ingenuidade, e só por ingenuidade, não cuidaram que esse PSD do poder se apropriava à força toda do discurso, das ideias e até de algumas práticas da oposição. Resultado: esse PSD tomou o espaço de outros partidos. E as bandeiras que eram de uns, passaram a ser de todos. E a oposição distraída ficou sem chão. Mais uma vez. A fazer lembrar a derrocada eleitoral de 2007. Quando a campanha interna do PSD estava no auge, a oposição começou a ensaiar um novo discurso. Timidamente, talvez para não interromper a briga no poder, acusaram os delfins de não viverem nesta terra, tal eram as incongruências. E fizeram-no com toda a razão. Mas não se aperceberam que ao mesmo tempo que deixavam o palco todo para a maioria, a oposição deixou-se apagar. E agora, como que num passe de mágica, fez-se luz. Acabou o longo período de letargia e correm atrás do prejuízo. Mas o que é estranho é que esta reacção surge como se fosse resposta a um cenário novo, a algo inesperado. Nada mais falso. O actual panorama eleitoral é o que temos de mais certo desde há dois anos, quando Albuquerque enfrentou o antigo líder. Desde essa altura que era mais do que previsível que haveria novo congresso, que o velho líder seria deposto e que todos se uniriam ao novo. Confesso que não esperava tanta fragmentação interna, mas não me surpreende absolutamente nada a união que se ergueu à volta da nova liderança social-democrata. Acredito que o mesmo acontece com tantas outras pessoas desligadas dos aparelhos partidários. Por isso, se tanta gente viu em ante-estreia o filme que agora está em cartaz, como não o viram alguns dirigentes da oposição? A propósito desta distracção, não resisto a partilhar um pequeno apontamento que publiquei neste mesmo espaço e que, sem surpresa, se confirma totalmente. Foi publicado a 26 de Julho de 2014. Tem seis meses mas parece que foi escrito há seis semanas: “Não sei o que pensam os principais dirigentes políticos da oposição na Madeira. Salvo uma ou outra excepção, parecem-me distraídos com a luta política no interior do PSD. E então, julgo eu, assistem na primeira fila, caladinhos, a apreciar a guerra, apontando, uma vez ou outra, para o mau exemplo daquelas brigas. Esquecem que esse seu silêncio, mais do que favorecer o espectáculo de que procuram tirar partido, acaba por mostrar aos cidadãos que enquanto uns brigam outros deixam passar esta linda brincadeira. Esquecem que as eleições regionais estão à porta e que é preciso prepará-las como deve ser. Esquecem que mais depressa se unem as maiores divergências entre quem está no poder, do que se junta quem está na oposição. Esquecem que quem manda é capaz dos maiores exercícios de contorcionismo para continuar a mandar e que quem nunca mandou facilmente desiste, deita a toalha ao chão e se conforma. Não tenho dúvidas de que depois de toda esta briga pública no PSD, quando chegar a vez de reunir, quando cheirar a uma efectiva perda de poder, os maiores inimigos serão os principais aliados, capazes de engolir sapos em nome de projectos, sonhos, programas e outras balelas. E quando esse momento chegar, se chegar, a oposição estará então a levantar-se da primeira fila de onde assiste à guerra para recrutar soldados oposicionistas. Será tarde. Talvez muito tarde.”