Quebrado o silêncio reverente e cúmplice, o debate político tomou conta desta Ilha. Finalmente, o quotidiano democrático congelado durante quase quarenta anos desabrochou timidamente! Há poucos dias, esse tímido quotidiano democrático penetrou no reduto sombrio e desacreditado da “velha” assembleia legislativa e em nome da lucidez mais primária, obrigou a arrogante maioria absoluta agora cabisbaixa e envergonhada, a negar o que ontem afirmara e a aceitar com aplauso, o que ainda ontem rejeitara. Sou dos que entendem que foi muito importante chegarmos aqui e acredito que o quotidiano democrático ainda tímido, irá fazer o seu caminho. Com sobressaltos e algumas hesitações, mas respeitando sem insultos opiniões diferentes, promovendo sem favores a competência, gerindo com seriedade e rigor o nosso dinheiro e protegendo com dignidade os mais frágeis. E tudo isto até pode acontecer pois como disse alguém “ … não é por vontade de quem sai … mas de quem fica.” Quando há cerca de dois anos Miguel Albuquerque rompeu o silêncio cúmplice que sustentava o já frágil e desgastado poder, escrevi então uma crónica onde de forma metafórica recorri ao momento histórico protagonizado por Mouzinho de Albuquerque. Hoje, ao olhar o novo tempo político condicionado pela eleição do atual presidente do PSD-Madeira, encontro na figura do “padre voador” como ficou conhecido Bartolomeu de Gusmão, outro momento histórico ajustado. O “padre voador” num distante mês de Novembro, desenhou uma Passarola para um dia poder voar. Com engenho e arte, durante os dois anos seguintes foi construindo essa Passarola. Exatamente a 11 de Janeiro, mas de 1709, o “padre voador” apresentava a D. João V a sua Passarola que “voou” do castelo de S. Jorge até ao Terreiro do Paço. Mas o “padre voador” deixou um sábio aviso: para a Passarola conseguir levantar voo não pode ter excesso de peso. Todos lá cabem, mas há que ter a coragem de deixar em terra aqueles que têm a consciência demasiado pesada e os que levam consigo o peso do oiro roubado. E porque estou atento aos sinais do tempo, também eu termino hoje o meu ciclo de “velhas” crónicas. Sem esquecer o passado, quero estar presente no futuro e com “novas” crónicas. E para despedida, deixo uma adaptação livre, mesmo muito livre, de uma bonita lenda que de boca em boca chegou até nós e que connosco ficará para alem dos séculos. Conta a velha lenda, que quando o Novo Senhor que conquistara o poder percorria a Estrada de Damasco reservada aos eleitos, se terá cruzado com o velho Senhor que derrotado, acabara de perder quase tudo. Ouviu quem estava por perto, que o velho Senhor em tom agreste dirigiu-se ao jovem vencedor: “ …. que trazes tu debaixo desse casaco de fino corte e o que ocultas nessa echarpe flutuante que te envolve o pescoço? Sei bem que escondes nessas vestes que cativam o olhar das donzelas, os velhos tempos reacionários, o regresso dos senhorios que exploravam os colonos, a maçonaria diabólica que quer afundar esta Ilha, os donos do dinheiro que tudo corrompem. Vá …. tem coragem e mostra o que trazes encapotado nas tuas seletas roupagens.” “ Enganai-vos Senhor!” respondeu o jovem. “…..o que trago comigo … são rosas!” “ Rosas em Janeiro? Impossível! Então …. mostrai-me essas rosas!” retorquiu agastado o velho Senhor. “Vede velho Senhor …. vede com os vossos olhos estas lindas rosas de S. Jorge!” E o velho Senhor vergado e já sem animo, apenas balbuciou: “Perdoai-me se vos ofendi ….. mas nunca pensei ver rosas tão lindas a 11 de janeiro!” E todo o bom povo logo ali se ajoelhou e perante tal milagre ……… até os fariseus e vendilhões do templo louvaram o Novo Senhor.
Manuel de Brito