Era um tempo em que a minha mãe nos vestia de igual, para nosso desconsolo. Tínhamos um vestido de ganga com um cisne à lapela, comprado na D. Rita, que era a única loja pronto-a-vestir da freguesia. Um bazar com tudo, mas sem as chinesices de hoje.
Nesse tempo, ir ao Funchal ainda era coisa de horas. Há muito que é de minutos.
Fomos à missa, como íamos todos os domingos. À porta alguém nos colou um autocolante laranja e ficámos orgulhosos como se tivéssemos recebido uma estrelinha de bom comportamento. Andávamos a correr no adro, enquanto decorria aquilo que para nós era uma festa. Tudo era uma festa naquela altura. Havia bandeiras da cor do nosso autocolante, que se manteve lado-a-lado com o cisne, e música alta. Atiraram papéis coloridos e nós estivemos a apanhar, divertidos, como se tivessem feito aquela brincadeira para nós.
E a escola?, perguntou alguém. Só havia tele-escola. Acho que ficou prometida, ali. Para breve. Nunca a conheci. Nesse tempo já ia de autocarro sozinha para outro estabelecimento. Quando chovia muito e ficávamos rodeados de lama por todos os lados, o meu pai levava-me ao colo à paragem, para não sujar as botas, os collants, ou o bibe.
Não nos preocupávamos com isso, nem com as várias turmas enfiadas na mesma sala, de uma escola cujo pátio era a estrada principal, que não tive a infelicidade de frequentar. Éramos felizes a enfeitar pinheiros com flores e a fingir que era Natal o ano inteiro. E a ir ao Funchal quando era preciso.
E nesse dia tínhamos ganho um prémio. Um autocolante colorido à saída da missa, que ostentámos até à noite, depois de uma tarde de brincadeiras. Um amigo do meu pai tirou-me, porém, com desdém a preciosidade. “Este, não”, disse-me. Perguntei ao meu pai, o que havia de mal. “Há pessoas que são do Benfica, outras do Sporting, o X não gosta do laranja, gosta de outra cor”. Quis saber que cor gostava, mas ninguém disse. Não se invocava cores em vão publicamente nesse tempo. “E não se pode apanhar papéis?”, perguntou. “Estão no chão e são sujos”, respondeu, sábio, o meu pai.
Então e o Jardim?, perguntam-me vezes sem fim. Agora menos. Como se explica? Dá-me vontade de os mandar falar com o X, o amigo do meu pai, que a vida afastou, e que um dia me tirou o autocolante da lapela. Tinha eu meia dúzia de anos. Encontram-no na fila da frente, bandeira em riste, dos comícios e festas do PSD, que custaram em 2011 quase dois milhões de euros, pagos por nós todos, que sustentamos esta máquina. Diz que a vida lhe correu bem. Deixou de ser esquisito com cores.
Como explicar o Jardinismo? Crianças apanhadas em propaganda à porta de uma Igreja conivente. Com virtudes e defeitos em que uns não apagam os outros. E a certeza que os madeirenses ainda não assimilaram que não há espetadas, Tonys, boleias, nem Carreiras grátis. Acabou? Não sei.
Sandra Cardoso