Conforme previsto Alberto João Jardim, não conseguindo adiar mais, saiu sem honra nem glória, procurando um guarda-chuva onde se acoite das consequências dos seus atos e maledicência e que lhe continue a assegurar imunidade e impunidade. Resta fazer o ajuste de contas com o passado e com o futuro. O tempo e os tribunais disso se encarregarão. Seria contudo importante, para acabar de vez com o mito que ainda subsiste, fazer uma espécie de deve/haver entre a obra feita e a utilidade e custo da mesma, para tirarmos a limpo se estamos na presença de um herói ou de um vilão.
Alberto João saiu mas todo o resto ficou - ficaram os mesmos protagonistas, alguns dos quais seus inefáveis seguidores. Findo que está o sucessório tresmalho em que balbuciaram divergências inexistentes com o único objetivo de serem o próximo líder, voltaram ao redil e prestaram vassalagem ao novo líder, como anteriormente fizeram a AJJ, esbatidas todas as diferenças, como café solúvel em água quente. É importante unir, garantir para já este ou aquele cargo, até porque o que interessa mesmo são as regionais e que as clientelas continuem a ser servidas.
Albuquerque, no seu melhor, a todos acolheu, a todos abraçou. Acabada a dança das cadeiras, não ficou ninguém de pé. De forma inteligente Albuquerque soma e segue. Detentor de todas as fidelidades, destrunfou de imediato a oposição, fazendo suas as bandeiras por eles empunhadas, aproveitando para se descartar das situações mais visíveis e irritantes do jardinismo, tais como o Jackpot e a não limitação do número de mandatos do Presidente do Governo. Outras fará, com certeza, que afirmarão a sua alma reformista, propagandeando que agora e no futuro tudo será diferente. Passos Coelho dará, com certeza, ao amigo umas preciosas baldas financeiras, negadas a Jardim, aliviando impostos e preços, permitindo a Albuquerque afirmar uma postura de diálogo institucional, promessa de futuros risonhos.
Albuquerque não é ordinário nem boçal nem poltrão. Trata-se, pelo contrário, duma criatura urbana, civilizada, dialogante, de bom aspeto, cujo marketing assenta na imagem em vez do desbocado populismo de copo na mão, gasto e fora de prazo. A médio prazo será, contudo, esta a principal diferença. O partido está unido, a dinâmica é de vitória, a maioria absoluta nas próximas eleições regionais, são favas contadas.
Mesmo que queira mudar a lógica do sistema, Albuquerque está refém do PPD enraizado profundamente na cultura vigente, nas mentalidades e nos tecidos económico e social madeirense. Essa cultura que permite que só pode levantar a cabeça quem for “dos nossos”, está lá, intocável, os comissários políticos e os bufos nos seus lugares, assim como os incompetentes que enxameiam a administração pública. Por outro lado os novos aliados, antigos rivais, estão na sombra à espreita, à espera do primeiro deslize. Foi sintomática e clara a ameaça velada feita por um representante dum dos candidatos derrotados, comentador na RTP-M na noite das eleições, que “… nas regionais é que se ia ver”.
A oposição oferecerá de bandeja ao PSD a vitória por maioria absoluta. Confiantes de que os eleitores os escolheriam apenas por estarem fartos do jardinismo, não cuidaram de unir-se, ou, na impossibilidade dessa união, de criar uma alternativa comum equidistante de ambos, recorrendo eventualmente a uma figura de referência, com mérito público e notório, não comprometida com a atual teia partidária, que teria como principal missão proceder a uma auditoria global aos 40 anos de Jardinismo e uma subsequente e necessária desintoxicação da sociedade madeirense, mudando mentalidades, separando aparelho do PSD e administração pública, criando desse modo as condições necessárias a que, a médio prazo, pudesse funcionar um sistema partidário em efetiva democracia. Contudo esta oposição tem ego dilatado e vistas curtas, almeja apenas migalhas, benefícios imediatos e recusa-se a entender que após o jardinismo é necessário um período de nojo e de recalibragem democrática, que nenhum deles por si só tem capacidade ou força para assegurar.
Julgo que esta sucessão será antes uma primavera marcelista, uma “evolução na continuidade”, um mudar alguma coisa para que tudo permaneça na mesma. Nunca desejei tanto estar enganado. A ver vamos.
Helder Melim