“Professor sem lista” Esperei por ti todo o dia. Todos os dias deste último ano. Destes últimos dois. Uma lista de gente, uma gente sem lista. E a minha lista que não é de gente é somente uma espera de lista para lista. E é um punhado de desesperanças. Mais depressa entrará um político, com exclusividade ou não, no reino das reformas antecipadas que um desempregado, por mais títulos que tenha, no reino do trabalho. Ladra um cão. Não o animal. Um cão. Ladra palavras. Estranho. Não sei se já inventaram as colonoscopias verbais. Se sim, coloco aspas. Penso em tabuadas. Se sou um número, pertenço à tabuada do um. Sou UM vezes zero. Pelo menos nessa lista. Ser UM e não O. O mundo parou para a humanidade sair. Também quero sair. E, com olhos ternos, até é explicável. Nasce-se dos números. Logo em quilos. E somos números até os quilos serem aniquilados pelos vermes. Ou pelo fogo, para quem quer se despedir bem passado. Se não és um número de contribuinte, és um número de bilhete de identidade. E se não és um número de segurança social és um número de ADSE. Ou outro qualquer. Mas um número. Logo, ninguém pode recriminar aquela gente (que manda nesta gente) de nos tratar como números. E também são os números que te colocam no mercado de trabalho, também conhecido como a “Numerolândia””. Às vezes décimas, às vezes milésimas… separam os números de gente dos números de indigente. Porque um número de gente pode ter estudado mais para ser um número maior. E um número indigente pode ser melhor profissional em todos os trâmites e ter estudado menos e ser um número menor. E há de quem critique a lotaria dos números. O seu número de telefone é automaticamente riscado. Nem que chovam eleições. Arriscado será dizer que a incompetência também tem número. E a estupidez. E a ignorância. Ligo o televisor e, a horas proibidas, horas da família, vejo o incompetente número um, o estúpido número dois e o ignorante número três…. Ouro, prata e bronze.... Num pódio esculpido com tapetes vermelhos, assessores, motoristas e ajudas de custo. Se o mundo parar eu vou sair. Revejo a lista. Reconheço o meu nome e o meu lugar está cada vez mais distante de um pote de ouro, qual arco-íris estapafúrdico. Qual El Dorado rasurado. Penso na fome e no pão que sobra e que falta na lista, para a lista. Penso no teto e no chão que cobre e que desaba na lista, para a lista. Penso em sonhos esmagados, em insónias e porquês. Na lista, para a lista. Penso nos abortistas de adultos, que são gente como muita gente, armados com anestesias e bisturis, que abrem o ventre, como quem esquarteja um suspiro e matam o futuro, como quem inventa números em qualquer lista. Na lista. Para a lista. Se o mundo parou eu já saí. Pelo menos da lista.