Um episódio actual: “O Tio António estava bem de saúde, até que a tia Maria, a pedido da filha lhe disse:
- António, vais fazer 70 anos e está na hora de fazeres um check-up.
- Para quê, se estou tão bem?
- Porque é para teu bem e deve ser feito quando ainda és jovem, disse a esposa.
O médico mandou-o fazer análises a tudo. Duas semanas depois, afirmou que os resultados eram óptimos, mas que algumas coisas podiam melhorar. E receitou Atorvastatina para o colesterol, Losartan para o coração e hipertensão, Metformina para diabetes, Polivitaminas para as defesas do organismo, Norvastatina para a pressão, Desloratadina para a alergia, e como era muita medicação, teria que proteger o estômago com Omeprazol e um diurético.
O tio foi à farmácia e gastou boa parte da sua reforma em várias caixas requintadas de cores sortidas. Nessa altura, e como não conseguia se lembrar se os comprimidos verdes para a alergia deviam ser tomadas antes ou depois das cápsulas para o estômago, e se devia tomar as amarelas para o coração antes ou depois das refeições, voltou ao médico. Este deu-lhe uma caixa com divisões, mas achou-o tenso e contrariado, tendo receitado Alprazolam e Sucedal para melhorar o descanso. Quando entrou na farmácia, todos fizeram uma fila dupla para ele passar, aplaudindo-o. Mas foi ficando pior. Ele tinha os remédios num armário da cozinha e quase já não saia de casa, passando quase todo o dia a tomar as pílulas.
Dias depois, o laboratório de vários dos remédios que tomava, deu-lhe um cartão de “Cliente Preferencial”, um termómetro, um frasco esterilizado e um lápis da farmácia. Mas ficou constipado. A tia Maria fê-lo ir para a cama e chamou o médico. Este disse que não tinha nada, mas lá prescreveu Tapsin para tomar durante o dia e Sanigrip com Efedrina para tomar à noite. Como estava com uma taquicardia, receitou Atenolol e um antibiótico, 1 g de Amoxicilina, a cada 12 horas, durante 10 dias. Como lhe apareceram fungos e herpes, acrescentou Fluconol com Zovirax. Para piorar a situação, o tio ao ler as bulas dos os medicamentos, ficou a saber das contra-indicações, advertências, precauções, reacções adversas, efeitos colaterais e interacções médicas, coisas terríveis: não só poderia morrer, mas poderia ter arritmias ventriculares, sangramento anormal, náuseas, hipertensão, insuficiência renal, paralisia, cólicas abdominais, alterações do estado mental etc.. Com medo de morrer, chamou o médico que lhe disse para não se preocupar, porque os laboratórios só as colocavam para se isentar de algum mau manuseamento.
- Calma, Sr. António, não fique aflito, disse o médico, prescrevendo uma nova receita com o antidepressivo Sertralina com Rivotril 100 mg. E como estava com dores nas articulações, deu-lhe Diclofenac.
Nesta altura, sempre que o meu tio recebia a reforma, ia logo para a farmácia, onde já era cliente VIP.
Chegou a altura em que o dia do pobre do tio António já não tinha horas para tomar tudo, e já não dormia, apesar das cápsulas para a insónia prescritas.
Ficou tão mal que um dia, conforme já advertido, morreu.
No funeral quem mais chorava era o farmacêutico…
Agora, a tia Maria diz que felizmente mandou o tio ao médico na hora certa, porque se não tivesse feito isso, ele teria morrido antes…”
Este artigo é dedicado a todos os meus amigos, sejam eles médicos ou pacientes.
Qualquer semelhança com factos reais (não) será “pura coincidência”. Até breve!
João MM Castro