De há uns anos a esta parte assiste-se a um crescer de instituições de solidariedade social, assim como outras de raiz solidária com crianças e até com pessoas com doenças várias de perfil muito complicado, o que desde logo nos leva a questionar se este modelo de sociedade vigente, dito neoliberal, é assim tão bom e prometedor de uma vida melhor para um maior número de pessoas, seja na esperança de um futuro risonho, seja nos cuidados médicos prestados às populações. Se a pobreza e a precariedade nos cuidados de saúde aumentam para uma grande parte da população e o enriquecimento e bem-estar também aumenta para uma pequeníssima parte da população, é lícito que a dúvida se instale. A verdade é que os voluntários dessas mesmas instituições particulares aparecem-nos, amiúde, em peditórios a favor das causas que militam. Tenho evidentemente o maior respeito pelo voluntariado e por todas as pessoas que se entregam às referidas causas. Mas … cuidado, o monstro pode estar a aproveitar-se do vosso bom coração, da vossa alteridade. É que a existência destas instituições vai desobrigando, sub-repticiamente, a instituição Estado, do seu dever de não permitir que a pobreza se alastre, antes diminua, e se tal ocorre, significa que não está a gerir de modo justo a riqueza gerada. Assim, por incrível que possa parecer, esta genuína militância piedosa e compassiva, na sua tentativa de suprimir carências no imediato, nada resolvendo de profundo e duradouro, poderá estar a ajudar o infractor Estado, “pressionado” pelo chavão neoliberal “o Estado não sabe gerir”. Não estou a defender que se acabem com as instituições, e muito menos com o voluntariado, mas antes a alertar que se o Estado cumprir as suas obrigações, não deixando que o empurrem para fora da sua jurisdição, estas instituições serão em menor número e algumas não terão mesmo lugar, assim como realçar que é importante e necessário que surjam também voluntários na defesa da instituição Estado, (não numa perspectiva fundamentalista, mas moderada e esclarecida), o qual tem vindo a ser o alvo de destruição preferido do modelo de economia reinante e que inevitavelmente nos conduziu ao patamar onde nos encontramos. Com um Estado definhado e moribundo que se ajoelha perante um neoliberalismo pujante e insaciável.
Fernando Rodrigues Cooperante da “Espaço às Àrtes - Cultura Ponto Zero”