Terminado mais um ano escolar, muitos dos nossos jovens vêem-se a braços com um grande desafio: escolher a fase seguinte da sua formação, conseguir entrar no curso que escolheram ou encontrar uma solução para ultrapassar as barreiras que o insucesso ou a má sorte lhes proporcionou.

Num país de fracos recursos como o nosso, e particularmente numa região onde a hotelaria tem um impacto económico tão preponderante, sempre me surpreendeu o facto de a hotelaria madeirense, nunca ter merecido o destaque que o seu potencial oferece, em termos de saídas profissionais para os mais jovens.

Tendo em conta esta realidade, o ensino tarda em ganhar mais qualidade e notoriedade. Neste ambiente, as dificuldades fazem-se sentir a todos os níveis (entre os jovens e famílias que procuram uma orientação profissional, mas também perde o próprio sector, que se vê a braços com uma falta de recursos qualificados).

Facilmente se instala um ciclo vicioso negativo, que penaliza a sociedade como um todo, na medida em que perde a oportunidade de receber o retorno do investimento que desenvolveu em educação, porque simplesmente as opções acabam por recair sobre cursos que o mercado não consegue absorver.

Sempre constatei, durante entrevistas a jovens que procuram trabalho nos hotéis, que muitos deles optavam pela hotelaria como uma segunda ou terceira escolha, depois de, ou não terem tido notas ou meios para dar asas aos seus sonhos, ou por terem sido “empurrados” pelos insucessos da vida, trazendo a frustração bem visível nos seus olhares. Esta frustração tem sobretudo origem no grande desconhecimento que os jovens têm das oportunidades profissionais de sucesso que a hotelaria proporciona e por terem, muitas vezes, como única referência pessoas que optaram pela hotelaria como plataforma de sobrevivência, sem terem o perfil exigido e sem nunca terem tido a oportunidade ou a vontade de o desenvolver.

Verifico igualmente que, de uma forma geral, não são conhecidas as oportunidades de formação e desenvolvimento que muitos grupos hoteleiros proporcionam aos seus quadros.

Acredito que a hotelaria seja das indústrias que mais capacidade tem para proporcionar, com maior rapidez, carreiras de sucesso e níveis de responsabilidade acrescidos, mesmo aos jovens com níveis de formação médios ou baixos, desde que os candidatos estejam dispostos a investir em si próprios e queiram trabalhar nela com paixão. Depois, como em qualquer outro ramo profissional exigente, a hotelaria precisa de gestores de topo, muito bem preparados, pois é igualmente dos sectores que mais polivalência exige, de modo a cobrir um leque variado de áreas: das vendas ao marketing, passando pela contabilidade, construção civil e manutenção e decoração, mas também pelas relações públicas e pelos recursos humanos.

Com uma imagem defeituosa, devido à falta de divulgação e promoção, a hotelaria não capta muitas vezes profissionais com o perfil adequado às exigências da profissão que, no entanto, representa uma actividade muito exigente. Nestas condições os níveis motivacionais são forçosamente baixos, o desempenho é quase certamente deficiente e o sucesso então, impossível. A fraca qualidade do serviço prestado é muitas vezes o reflexo de tudo isso.

Precisamos de sensibilizar as camadas jovens para as oportunidades de sucesso que a hotelaria representa, mas também para o perfil e as exigências que uma carreira na hotelaria acarreta. Só assim os jovens se interessarão mais por ela e por conseguinte a formação existente terá oportunidade de se desenvolver e ganhar mais relevo. Com isso, não só o mercado local sairá beneficiado, como a RAM exportará mais quadros de maior qualidade e o ensino na região ganhará mais visibilidade, atraindo jovens de outras paragens - factor que, por si só, representa fonte de riqueza.

Hoje, mais do nunca, fruto por um lado da maior competitividade e por outro, da maior exigência do cliente, impõe-se, no desempenho de qualquer actividade do sector dos serviços (e não só), competências que os neurocientistas atribuem ao “hemisfério direito” do nosso cérebro. Na indústria hoteleira isso é ainda mais verdade, mas que competências são essas? Um candidato à hotelaria que vise o sucesso, deverá ser criativo, intuitivo, comunicativo, extrovertido, com gosto pelo estético, pelo belo, mas que seja também capaz de gerar e gerir emoções e afinidades. A boa notícia é que estas competências, mesmo quando não são inatas, podem ser adquiridas, desenvolvidas e aperfeiçoadas. São como as línguas estrangeiras, igualmente indispensáveis a uma carreira no sector.

Ser hoteleiro com sucesso, é também entender e aceitar com gosto as especificidades da indústria: horários variáveis, polivalência no exercício de funções, disponibilidade e mobilidade geográfica.

Ter sucesso na hotelaria exige excelentes qualidades humanas, mas é certamente um dos sectores que mais satisfação pessoal proporciona e mais justiça faz ao que disse Dane Hulse: ‘Ganhamos a vida pelo que recebemos, mas vivemos a vida pelo que damos’.

Sidónio de Freitas