A manhã está enevoada de branco e cinza, como envolta em algodão. Todos foram à missa. Nós ficámos no jardim - nós e os pássaros. O pássaros! Sob as nuvens redondas que, às vezes, chovem umas gotas finas, como elas entram e saem da trepadeira, como chilreiam, como se tocam com os bicos! Este cai sobre um ramo, ergue-se e deixa-se a balouçar; o outro bebe num pequeno charco do parapeito do poço, que tem em si um pedaço do céu; aquele saltou o telhado cheio de flores quase secas, que o dia cinzento aviva. Benditos pássaros, sem festa fixa! Com a livre monotonia do natural, do verdadeiro, os sinos nada lhes dizem a não ser uma vaga felicidade. Viajam sem dinheiro e sem bagagem, mudam de casa quando lhes apetece, suspeitam um regato, pressentem uma folhagem, e têm só de abrir as asas para conseguir a felicidade, ignoram as segundas-feiras e os sábados, banham-se em qualquer parte a cada momento, amam o amor sem nome, a amada universal. E quando os homens, os pobres homens!, vão à missa, aos domingos, eles num alegre exemplo, vêm, de súbito das casa fechadas, em que um poeta, que já conhecem bem, os contempla fraternalmente. Haverá um paraíso dos pássaros? Haverá um campo verde sobre o céu azul, todo em flor, de áureos roseirais, com almas de pássaros brancos, róseos, azuis-celestes, amarelos ? Escuta : à noite, as crianças, tu e eu desceremos o pássaro morto ao jardim. A Lua é cheia e a sua pálida prata parecerá a pétala murcha de um lírio amarelento. E enterrá-lo-emos no roseiral. Nesta mesma Primavera, veremos o pássaro sair do coração de uma rosa branca. O ar fragrante tornar-se-á sonoro, e haverá no sol da Primavera um errar encantado de asas invisíveis e um rasto secreto de trinos claros de ouro puro. Em Setembro, nas noites de vigília, púnhamo-nos no cabeço que há atrás da casa do horto, a sentir, naquela paz que emanavam os nardos do tanque, a aldeia toda em festa. Já tarde, queimavam o fogo. Primeiro, eram pequenos estampidos surdos; depois, foguetes sem cauda, que no alto se abriam num suspiro, como um olho estrelado que fitasse, um instante, o campo arroxeado, rubro e azul ; e outros, cujo esplendor caía como uma donzela nua que se voltasse de costas, como um salgueiro sangrento que gotejasse flores de luz. Ó que pavões acessos, que maciços aéreos de claras rosas, que faisões de fogo em jardins de estrelas! Passaram as férias, e, com as primeiras folhas amarelas, as crianças regressaram ao colégio. Solidão. O sol da casa parece vazio. Na imaginação, soam gritos longínquos e risos de outrora…Sobre os rosais ainda em flor a tarde cai lentamente. As labaredas do acaso prendem as últimas rosas, e o jardim, levantando-se como uma chama de fragrância para o incêndio do poente, cheira a rosas queimadas. Silêncio. Depois das longas chuvas de Outubro, no ouro celeste do dia aberto, fomos todos para as vinhas. Que encanto o do campo renovado! Os regatos transbordavam, as terras estavam brandamente aradas, e nos choupos marginais, enfeitados ainda de amarelo, viam-se já os pássaros. De repente, as crianças, uma atrás da outra, correram, gritando : um cacho ! Um cacho! Numa velha cepa, cujos longos sarmentos enredados mostravam ainda umas enegrecidas e avermelhadas folhas secas, o Sol quente acendia um claro e sadio cacho de âmbar. Todos o queriam! A menina que o apanhou, defendia-o com as costas. Pedi-lho, e ela, com a doce obediência que dedica ao homem a rapariga quase mulher, cedeu-me de bom grado. O cacho tinha cinco grandes uvas. Dei uma a cada criança, e a última, entre gargalhadas e a palmas de todos, a ti. Os amarelos terraços brancos recortam-se secamente sobre o alegre céu azul, gélido e estrelado. O norte silencioso acaricia, vivo, com a sua pura grandeza. Todos julgam que tem frio e escondem-se nas casas, fechando-as. Nós, vamos devagar, pela límpida aldeia solitária. Que força interior me eleva, como se eu fosse uma torre de pedra tosca com cúpula de prata ! Olha, quantas estrelas! De tantas que são, dão-nos tonturas. Dir-se-ia que o céu reza à terra um rosário aceso de amor ideal. Daria toda a minha vida e ansiaria que quisesses dar a tua, pela pureza desta alta noite de Janeiro, erma, clara e dura ! Saberá o que penso nela ? Que me importa ? Na ternura do amanhecer a sua lembrança é-me grata como a aurora. E, graças a Deus, tem um quarto quente e macio, suave como o meu pensamento. A fogueira no campo !…É a tarde da Consoada, e um sol opaco e débil mal ilumina o céu frio, sem nuvens, todo cinzento em vez de azul. De súbito, um estridente estalido de ramos verdes que começam a arder; depois, o fumo espesso, branco como arminho, e a chama, enfim, que limpa o fumo e povoa o ar de línguas momentâneas. Oh, a chama ao vento! Espíritos rosados, amarelos, malvas, azuis, perdem-se não sei por onde, subindo a um secreto céu baixo; e deixam no ar frio um odor de brasas! Campo, morno agora, de Dezembro! Inverno carinhoso ! Consoada dos felizes! As estevas vizinhas derretem-se. A paisagem, através do ar quente, treme e purifica-se como se fosse de cristal errante. E os filhos do caseiro, que não têm Natal, rodeiam a fogueira, pobres e tristes, a aquecer as mãos enregeladas, e atiram para as brasas bolotas e castanhas, que saltam num estouro. E alegram-se logo e saltam sobre o fogo, que a noite vai-se avermelhando, e cantam : « Caminha, Maria,/ Caminha, José…»; e eu trago-te para que brinques com eles. Deus está no seu palácio de cristal. Quero dizer que chove. Chove. E as últimas flores, que o Outono deixou teimosamente presas nos ramos exangues, carregam-se de diamantes. Em cada diamante, um céu, um palácio de cristal, um Deus. Olha esta rosa; tem dentro outra rosa de água, e ao sacudi-la, vês?, cai-lhe a nova flor brilhante, como alma sua e ela fica murcha e triste, como a minha. A água deve ser tão alegre como o Sol. Se não, olha como correm felizes, sob ela, as crianças, fortes e coradas, com as pernas nuas. Vê como os pássaros entram, num alvoroço bando de súbito, na era - na escola…Chove. Hoje não vamos para o campo. É dia de contemplações. Olha como se lavam as folhas verdes, como o barquito das crianças. Ontem parado entre a erva, voltou a navegar na valeta. Olha agora, neste sol instantâneo e débil, como é belo o arco-íris que sai da igreja e morre, num vago vislumbre, a nosso lado!. Vê-nos, não é verdade? Não é verdade que vês como ri em paz, clara e fria, a água da nora do horto; como voam, na luz derramada, as abelhas atarefadas em volta do alecrim verde e malva, róseo e dourado pelo Sol que ainda ilumina a colina ? Vês-nos, não é verdade ? Não é verdade que vês as crianças correndo, entre as estevas que têm pousadas nos ramos as próprias flores, leviano enxame de vagas borboletas brancas, gotejadas de carmim ? Vês-nos, não é verdade? Não é verdade que nos vês ? Sim, vês-me. E eu oiço no poente derramado, dulcificado todo o vale das vinhas, o teu lamento magoado e terno… Meu terno amor, que tantas vezes levaste a minha alma! - pelos fundos caminhos de cactos, de malvas e de madressilvas: para ti estas palavras que falam de ti, agora que podes entendê-lo. Vai para a tua alma, que já te espera no Paraíso, pela alma das lindas paisagens que vivemos, que deve ter subido ao céu com a tua. Leva a minha alma, que, caminhando entre silvas em flor para a sua ascensão, todos os dias se faz melhor, mais pacífica e mais pura.

Sim. Eu sei que ao cair a tarde, quando, entre os verdilhões e a flor das laranjeiras, chego, lenta e pensativamente, pelo laranjal solitário, ao pinheiro que lamenta a tua morte, tu, feliz no teu campo de rosas eternas, me vês parar junto dos lírios brancos que brotaram do teu coração decomposto.

Renata Camacho