A obsolescência programada é a decisão de propositadamente construir, desenvolver, fabricar ou distribuir produtos ou estruturas deficientes e faz parte de uma estratégia de mercado que visa garantir um consumo constante, através da insatisfação, de forma que os produtos/estruturas que satisfazem as necessidades daqueles que os compram/utilizam parem de funcionar ou se tornem obsoletos, num curto espaço de tempo, tendo que ser obrigatoriamente substituídos por outros produtos ou estruturas mais modernos. Nos casos mais graves de obsolescência na construção, quando os custos operacionais e de manutenção são demasiado elevados para poderem ser mantidos, acaba por ser inevitável ter de construir uma nova estrutura que substitua a que foi inicialmente “remodelada”.
Qualquer semelhança entre o anteriormente descrito e a realidade que sofremos no nosso hospital, não é pura coincidência. Está a ser cometido um erro gravíssimo e extremamente caro com as actuais obras e estão a ser gastos recursos que irão condicionar o futuro da nossa Saúde de forma irremediável. Está-se a gastar milhões de euros num hospital que se sabe que é obsoleto. O Hospital Dr. Nélio Mendonça é obsoleto há décadas! Este facto foi reconhecido, inclusivamente pelo próprio Governo Regional da R.A.M., ao ponto de se ter gasto milhões de euros no projecto para um novo hospital em Santa Rita. Esse projecto tinha um valor não oficial de 130 milhões de euros, à volta de 20% mais caro que outras unidades de dimensão semelhante construídas no nosso país, e passados poucos anos também já se encontra desactualizado e se fosse para avançar com a sua construção o projecto teria que ser revisto. De facto, em pouco tempo a nossa realidade mudou e a própria medicina evoluiu, tendo isso reflexo na concepção de um novo hospital. Face a isso, o projecto de Santa Rita estaria hoje desajustado, sobredimensionado em algumas áreas e subdimensionado noutras. A avançar a com construção desse novo hospital, com o projecto actualizado, a construção poderia até ser mais barata face aos 130 milhões previstos inicialmente, ter custos operacionais ainda mais reduzidos e o hospital seria com toda a certeza mais adequado à prestação de melhores e mais modernos cuidados de saúde à população.
Mas se o projecto de Santa Rita, já concebido neste milénio, está obsoleto, o que dizer do nosso Hospital Dr. Nélio Mendonça? Este hospital foi inaugurado na década de 70, a sua construção foi iniciada na década de 60 e o seu projecto inspirava-se nos grandes hospitais americanos da década de 50 do século XX… Será que alguém acredita que este hospital não está obsoleto? Será que alguém acredita que apenas com remendos e acrescentos a Madeira terá um hospital capaz e competente para os próximos 40 anos? Está-se a gastar milhões e milhões de euros em obras que se sabe que não irão servir para nada! O actual hospital era obsoleto ontem, é obsoleto hoje e depois de concluídas estas obras desastrosas continuará a ser um hospital obsoleto. Não existe nenhum hospital no mundo com um projecto de expansão sequer parecido com aquele que está a nos ser imposto. Acreditar e apoiar a ideia que com estas obras se conseguem resolver os problemas é condenar a população da Madeira a um hospital digno de um qualquer país de terceiro mundo por muitas décadas, com todas as consequências negativas previsíveis para a nossa população. Já percebemos que a urgência nestas obras não visa o beneficiar da saúde das pessoas, nem defender o interesse público. A ausência de resposta em relação ao quanto irão custar estas obras indicia que elas serão muitíssimo mais caras que se tivesse optado por um hospital novo, projectado de raiz e de acordo com aquilo que temos no resto do país, inclusive nos Açores.
As contas são fáceis de apresentar: um hospital novo para uma população à volta dos 250.000 habitantes custa cerca de 130 milhões de euros. As obras de remendos e acrescentos ao actual hospital, mais as “famosas” 7 torres de 10 andares a construir na escarpa do Ribeiro Seco, tem um custo total estimado de 230/240 milhões de euros, valores não oficiais e que até agora ninguém teve a coragem de assumir por razões mais do que óbvias…
Para aqueles que acham que isto não é importante: ninguém está livre de uma situação de doença e o dinheiro que é gasto a mais em obras inúteis irá faltar para tratar situações de doença grave. Um dia pode sofrer na sua pele, ou da sua família, as consequências destas opções. “Porque as coisas são como são, as coisas não continuarão como são!” – Bertolt Brecht
Duarte Nuno Dória