“Como se faz bisbilhotice nas igrejas(...) contra o presidente da associação, contra a catequista... Uma vez falava-se de uma idosa que trabalhou na paróquia toda a sua vida. Uma pessoa que a conhecia bem disse: esta senhora nunca bisbilhotou, nunca criticou, estava sempre com um sorriso.
- Uma mulher assim pode ser canonizada amanhã”.
Esta narrativa simples mas percetível é da autoria do surpreendente Papa Francisco, numas das audiências gerais que concede a milhares de fiéis no Vaticano, às quartas-feiras.
Mesmo para os que não professem a religião católica o exemplo evocado pelo Sumo Pontífice encerra uma imagem mais relevante do que se possa inicialmente pensar.
Nesse encontro solarengo com as pessoas, Francisco indignou-se e revoltou-se perante a “bisbilhotice” que grassa na vida “das nossas paróquias”, a inveja que domina os comentários sobre fulano e beltrano e a maledicência que perpassa em quase todas as conversas. E na avalanche em que isso se transforma, prejudicando a vida da comunidade.
Enquanto ouvia deliciado as palavras do Papa Francisco, básicas, descomplicadas mas muito assertivas e oportunas, recordei as “paróquias” da minha vida e identifiquei episódios semelhantes ao exemplo dado pelo chefe da Igreja Católica. Garanto-vos que me veio à memória muitos(as) bilhardeiros... Afinal, quem não conhece um exemplar dessa espécie, com esse dom extraordinário de escrutinar a vida alheia?
Nos meios pequenos é normal que todos se conheçam uns aos outros. Há sempre ligações, diretas ou indiretas, a “a” ou a “b”. Porque é vizinho, um primo afastado, colega de trabalho, chefe, patrão e por aí fora.
Implacavelmente perde-se privacidade e as rotinas do quotidiano passam a ser desconfortavelmente controladas por alguns, que fazem da bisbilhotice o seu desporto de eleição. Levado ao extremo esse “controlo” origina as tradicionais redes de coscuvilhice altamente perniciosas, que podem tornar a vida do mais reservado e honesto cidadão num verdadeiro inferno.
Infelizmente, a bilhardice tão típica de algumas sacristias, dos sítios e das freguesias atingiu uma proporção desmesurada em diversas frentes (veja-se a realidade da nossa política doméstica).
A maledicência generalizada é uma verdadeira praga que mina e obstaculiza não só a evolução sustentada de uma paróquia, mas também de uma região e de um país.
É sabido que a população da Madeira é culturalmente propensa a superstições, a invejas, a “maus olhados”, entretendo-se obsessivamente com a vida do vizinho, do colega, do parceiro. Acontece nos bairros, nas empresas, nos órgãos políticos, na Igreja e também nas famílias. A coscuvilhice e a boataria adjacente atingem proporções diabólicas, semeando preconceitos, destruindo relações, separando pessoas, impossibilitando a concórdia, a comunhão de pontos de vista, o entendimento.
Não é fácil acabar com o que o Papa designou de “pecado paroquial da bisbilhotice”, mas não é impossível. Nem só os católicos devem refletir sobre as palavras simples mas certeiras de Francisco, mas todos os homens de boa vontade, por forma a abolirem com a má-língua instalada em todos os setores da sociedade. E, convém lembrar: para se ser santo, basta sorrir, sorrir muito. PS - No dia (sexta-feira) em que se ficou a saber que a Escócia continuará a ser parte integrante do Reino Unido, por vontade dos escoceses, voilá, chega-nos da Madeira, via presidente do Governo Regional, um pedido de referendo que acabe com o contencioso com a República, e que permita o aumento da autonomia insular.
A ideia é velha e nunca fez caminho. Muito menos agora que a Madeira está refém de um programa de reequilíbrio financeiro, por causa da sua dívida monstruosa. Este senhor ainda não percebeu que os madeirenses já não o acompanham nesta forma populista de fazer política, nem que deste lado (continente) não lhe ligam nenhuma, começando pelo seu próprio partido.
Que tenha primeiro a coragem de rever o Estatuto Político Administrativo da Região para acabar com a imoralidade (única no país) das subvenções vitalícias e da acumulação de ordenados e pensões dos detentores de cargos públicos.
Roberto Ferreira