Disseste: o sol nasceu. Foi verdadeiramente então que o sol nasceu e que nos habituámos todos a dizer que o sol nasceu. Às vezes pensamos que acontece várias vezes mas é uma ilusão óptica que não nos deixa ver o grande círculo azul em cujo centro tu dizes eternamente: o sol nasceu.

Vinha do mar com relentos de cheiros e mistérios, de países não ditos e línguas sem palavras. Vinha para um lugar que não lhe pertencia, como se acaso um dia lhe houvesse pertencido. Mudara de brumas, de ventos, e não eram já as mesmas ondas batendo contra o céu, e era afinal um terceiro elemento a completar-se à noite, junto ao fogo. Era um pequeno objecto mas não seria nunca um pequeno dejecto. Trouxera tempos, mãos, apalpações das almas, ouvidos ruidosos, olhos abertos para imensíssimas esperas.

Em cima de uma cisterna temos nos pés o mundo e nas mãos cantam os arcanjos até ensurdecer uma voz verdadeira que pudéssemos ouvir. Também nos olhos desce a catarata que afoga um real qualquer acaso exista. Nas mãos, isso sim, o oco e a água, mundo verticalíssimo, rápido e sagaz.

Assim julgamos. Mudamos de roupagem e num tempo não nosso mas de ninguém mais debitamos palavras sentidas sem sentido.

Azul. Era azul? Era a cor que era, não a que pretendo - ou seja, a que relembro. O mar. Água, em todo o caso. Vento por cima; ou era a voz de alguém fazendo o ar bulir ? É na pele o que sinto ou nos ouvidos soa? A sós a praia. A sós, que não estou lá.

A tinta preta que baila no papel garante a eternidade do que empunha o objecto dançarino e frio ( julgava eu um dia, ou simplesmente fingia acreditar ). A tinta de qualquer cor e o papel ou ferro onde se inscreva passam voláteis como os dedos cheios de intenções e como o som do cuco três vezes repetido.

Por ti dou tudo, mortes, mais do que eu possa de mim ou nada ser ou estar; por ti me vejo e sujo, e sou sandeu, viajo sem bilhete a marear mareado de quem, ou em que passo pra outro continente que contenha fidelíssima história que te faço antes que conte, ou cante, ou livre venha imitar os sossegos e as agruras das algas-picos sob o sol caído de tantas e cinzentas nuvens duras.

Por ti me fino, fano, e me divido entre a noite de vela em que me curas e o dia perto, porto, parto ferido.

Ao silêncio seguinte ninguém sequer responde, pois não sabe ter havido um som, uma verdade, um antes.

Renata Camacho