Na Madeira nada mais é o que foi nos denominados “tempos dourados” das inaugurações diárias de becos e túneis, campos de futebol e igrejas, regadas a vinho seco, acompanhadas de espetada e por um séquito apreciável de lambe-botas do poder reinante, que dispunha de dinheiro dos fundos europeus para manter uma agenda quotidiana de campanha eleitoral. À época a náusea propagandística não amainava em agosto, mês de eleição para a maioria das pessoas gozar férias. O arranque estival era inevitavelmente marcado pela festa do Chão da Lagoa e por todos os seus excessos: linguísticos, gastronómicos e, sobretudo, alcoólicos. Lembro-me bem de ver autocarros cheios de gente, estrada fora, a caminho da serra, para um dia de comes e bebes, acompanhados por momentos de delírio político, contra “Lisboa, a maçonaria, o lóbi gay e o Blandy” e tudo o que ousasse criticar o establishment instalado. Logo depois vinham as férias dos senhores do governo no Porto Santo, transformada na “datcha” dos influentes da terra, que invadiam o areal em longas passeatas matinais e que terminavam, invariavelmente, numa tasca conhecida da zona, que acolhia todos os excessos possíveis e imaginários, sob o olhar atento dos jornalistas que para ali debandavam em pleno agosto, a fim de cobrirem as férias mais burlescas do país, aparando e difundido bocas, recados e gritos de revolução, claro, contra Lisboa, a maçonaria, o presidente dos Estados Unidos da América e o padre Martins, de Machico. Um fartote de gosto duvidoso que invadiu, anos a fio, jornais, televisões e rádios.
Entretanto o fulgor acabou e agora tudo não passa de uma recordação frouxa, cansada e entediante. O povo já não corre para o Chão da Lagoa – que este ano se transformou num desfile de “misses” dos candidatos à liderança do PSD/M - e os jornalistas abdicaram do Porto Santo, onde o velho líder da quinta esforça-se para manter a muito custo a manchete diária do seu Jornal da Madeira, num exercício que mete dó, pela pobreza dos comentários emanados. “Graça para ter graça uma vez só basta” e a “graça” da silly season regional evaporou-se definitivamente, mesmo para os indefetíveis da corte do poder moribundo, típico de fim de regime.
Um novo ciclo está à porta, não tenhamos dúvidas sobre isso. A grande questão que se coloca aos madeirenses, cada vez mais com maior premência é: que candidato conseguirá dar a estabilidade política necessária para colocar a Região no mapa do desenvolvimento, imprimindo-lhe uma nova imagem e uma nova agenda económica? Após décadas de folclore político e de irresponsabilidade financeira, o senhor(a) que se segue tem a hercúlea tarefa de devolver a confiança aos cidadãos, a braços com o estado de degradação a que chegou a generalidade dos serviços regionais, em que o da saúde é apenas o mais evidente e gravoso. A Madeira precisa de ser democratizada. Para isso tem de existir coragem para se romper com a promiscuidade entre a política e os negócios, para se acabar de vez com a “política do favor”, das cunhas e dos arranjinhos partidários, tão marcadamente patentes no atual regime agonizante.
Os candidatos conhecidos, que se perfilham dão essas garantias?
Quem são os candidatos das outras forças? Haverá uma coligação de partidos? O CDS avança sozinho ou já iniciou conversações com algum dos candidatos do PSD? O PS avança só e candidata o seu atual líder, como já foi anunciado, fragilizado por críticas internas e pela própria conjuntura do PS nacional, não dando nenhuma esperança de vitória eleitoral?
Em democracia não há homens providenciais. O povo decidirá e nada garante que continuará a votar PSD, mesmo que revitalizado por um novo líder.
Roberto Ferreira