Ainda que mudem os nomes, a realidade da Comunidade Europeia continuará a dar que falar. Recuar um pouco no tempo, só nos facilita e elucida o presente - é sempre o somatório de anteriores factos. Não é meu habito escrever sobre questões de política internacional, como sabem, mas enquanto cidadã atenta tenho por norma : não me isolar do mundo em que vivo. Cinco anos?;…podem parecer muito. Não o são, creiam que não o são :
Num recente Conselho Europeu a Senhora Merkel terá dado indicações que não serão fábulas. Pelo menos J. Socrates regressou a Portugal com um largo sorriso - e os mercados contiveram-se na expectativa. Portugal vai colocando a dívida num mundo, onde a lei da oferta e da procura parecem não funcionar. Embora a procura de títulos corresponda sempre ao dobro da oferta ou ao triplo da oferta, as condições em que vendemos não melhoram e os juros mantêm-se rentes aos insuportáveis 7 % ( a dez anos ). Mas do mal o menos : o Estado ainda arranja credores para se financiar se não tivesse as « costas quentes pela Alemanha - que, custe o que custar » a U. E. defenderá sempre a sua moeda única. No horizonte, começa a surgir a constituição de um fundo destinado a auxiliar países em dificuldades sem recurso ao Mundo Monetário Internacional. É que o resgate do FMI à Grécia e à Irlanda, que implica pagamento de juros acima do limite, revelou-se um negócio ruinoso para aqueles países. Além da as contrapartidas exigidas terem precipitado uma recessão, os mercados mantiveram-se hostis. Quer com isto dizer que a milagreira emenda do FMI para Portugal poderá ser pior do que o soneto. Mas há alguns na receita Franco-alemã. Aos países em dificuldades, são exigidas para a redução dos défices, medidas draconianas que só podem resultar em mais recessão. Ora nestas condições as economias não recuperam para atingir o principal objectivo : amortizar a dívida! Repare-se : foi um responsável do FIM que, ao olhar para o Orçamento Português em 2011 - com medidas que o o Fundo exigiria - o desaprovou, por o achar recessivo. E a história é narrada ao pormenor, repetida ao longo da horas. Agora voltou à ribalta, há outros que se escondem à sua custa. O Presidente Saleh, do lémem, é um deles. A repressão violenta, o uso despropositado da força, o número de vítimas civis, tudo aumentou para níveis inaceitáveis na mesma altura em que a Líbia regressou às pantalhas. O ditador percebeu que estava na radar e continuou a fazer das suas. O mesmo aconteceu no Bahrein, que outro tempos foi dado à acção militar da Arábia Saudita e outro Estados vizinhos, que vieram para salvar o regime despótico do Rei Al-Khalifa ? Ou às detenções sistemáticas dos Direitos Humanos ? Sem falar na situação interna na Europa Saudita, o soberano dispensa dólares com a mesma facilidade com que o Rei Abdullah o soberano dispensa dólares com a mesma facilidade da « cenoura e da cacete. ». Assim, é bom que um perigo eminente no Norte de África permita encher o espaço informativo. Faz esquecer outros dinossauros antidemocráticos que ainda habitam o mundo Árabe, nem que por uma hora, murmura-se, se fazem jeito. E a fábula continua : « Não tem de ser necessariamente um candidato com um passaporte alemão », fez saber, através do seu porta-voz, a Chanceler Ângela Mendel. Importante é que o ( futuro ) presidente do Banco Central Europeu siga a linha germânica no que toca à rigorosa política de estabilidade. Embora não seja surpreendente, mas sim coerente, a demissão de Alex Weber, o presidente do Bundesbank como sucessor de Jen-Claude, à frente do BCE. A ideia de ter um alemão á frente da instituição guardiã da moeda única é consensual entre os dois grandes partidos políticos germânicos. Mal foi conhecida a demissão de Alex Weber, o SPD - Partido Social Democrata, avançar com o nome do antigo ministro das finanças, Peer Steinbriich, como potencial candidato. Mas Steindriich já se manifestou indisponível. Segundo uma regra não escrita, a distribuição de cargos em Frankfurt é feita respeitando uma espécie de cota proporcional entre países do norte e do sul, grandes e pequenos. Como os eleitores alemãs dificilmente aceitariam um italiano à frente do BCE - algo visto pela imprensa mais ácida - Mario Drajhi, o governador do Banco Central Italiano, parece arredado da corrida. Recentemente, numa entrevista à rádio pública alemâ, um --------------das finanças, também social-democrata, Hans Eichel ( o homem que nomeou Weber para o Bundesbank ), recordou que a estratégia seguida por Berlim visa pôr um alemão no topo do BCE : « O que explica, aliás, que Victor Constâncio seja vice-presidente do BCE .» Ficou assim cumprido o objectivo de um país pobre e ao sul da Europa - Constâncio - e um presidente que deverá vir de um país rico. Berlim não desistiu ainda de apresentar um candidato próprio ao BCE. A segunda escolha poderá recair sobre Klaus Rejlinj, director do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira ou sobre Jurgen Stark, o economista - chefe do BCE. Já no Bundesbank poderá sentar-se, a partir de Abril, Jens Weidmann, conselheiro da Chanceler em questões económicas. Em que ficamos ? Trata-se de um ciclo Kakfiano de que a Europa só se libertará em conjunto, não apenas com uma política monetária comum, mas com instrumentos orçamentais comuns e uma união política efectiva. Já que, tanto critica o consumismo dos outros, que se esquece de que, entre eles, se contam importantes clientes dos seus produtos. Por exemplo: o défice português foi agravado pela compra de submarinos…alemãs! Ou seja, a Alemanha é o principal beneficiário da «maldita moeda única»!
Como terminará a «longa fábula»?
Os especuladores atacaram, primeiro, a Grécia, que caiu. Esperava-se que esse facto estagnasse a hemorragia. Mas não: a seguir cairia a Irlanda - sempre na esperança de que os mercados se acalmassem. Ainda não: a seguir, viraram-se para Portugal. Neste ponto, - Bruxelas - e agora também, talvez, Berlim - perceberam a armadilha: seguir-se-iam a Espanha, a Bélgica, a Itália e a Holanda, consecutivamente. Quando chegasse a vez de França, a Alemanha ver-se-ia sozinha, e sem boleia, no meio do lago.
Será da sua natureza espetar o ferrão qual escorpião ?
Renata Camacho