A Madeira vive um tempo estranho. Política e socialmente parece que andamos ao sabor de uma maré agitada que tanto nos põe lá em cima como nos arrasta para o fundo. Tanto estamos no melhor dos mundos, como naufragamos no pântano em que o regime agonia. Tão facilmente ostentamos títulos, galardões, prémios e outras honrarias, como aparecemos vergados perante calotes e embrulhadas em que a única coisa que se sabe ao certo é que não sabemos nem da missa a metade. Este clima incerto traz-nos apreensivos. Sobretudo porque qualquer cidadão minimamente esclarecido já percebeu que estamos apenas no início de uma nova fase no processo de crescimento enquanto povo. Sabe que estamos apenas a ensaiar sair do casulo onde nos meteram anos e anos à conta de um desenvolvimento feito de alcatrão. E sabe também que o crescimento pode ser doloroso. As primeiras dores começam a aparecer sob a forma de uma longa trapaça que ainda não se sabe como nem onde começou e muito menos quando e onde vai acabar. O que se sabe é que essa teia gigante esconde muito calote, muita negociata e um clima muito perto da impunidade. As primeiras descobertas a sério ainda não deram em nada de concreto. Foram umas contas mal feitas, uns buracos escavados na contabilidade pública, uns largos milhões escondidos, outros perdidos, outros derramados, mas ainda não se sabe exatamente o que aconteceu. E começo a acreditar que nunca vamos saber. Confesso que me iludi com investigações aparatosas, com a GNR a chamar gente que não esperava que alguma vez fosse chamada e com tanto documento apreendido que foi enviado para análise em Lisboa. Mais iludido fiquei quando a justiça prometeu ser célere, quando anunciou prioridade total ao famoso processo ‘Cuba Livre’. Passado tanto tempo, continua tudo igual. Mantém-se a prioridade e a celeridade da justiça e a mesma descontração das entidades envolvidas. A única coisa que parece ter mudado foi a forma de administrar a Região. Lisboa percebeu o que se passava, impôs regras que o Governo da Madeira aceitou e são os madeirenses que pagam com austeridade sobre austeridade esse enorme buraco nas contas públicas. E assim, como já o escrevi, rapidamente descemos do estatuto político de Região Autónoma para uma quase Junta de Freguesia da Madeira. Mas mesmo estando sob observação permanente, mesmo tendo as contas da Madeira sido alvo de um maior aperto nacional, parece que aprendemos pouco. Ou aprendemos tanto que já regressamos aos vícios de sempre, depende da perspetiva. A verdade é que voltaram a ser notícia umas contas outra vez estranhas, aparentemente de sumir, daquelas em que quase podemos jurar que quem vai pagar são os mesmos de sempre, os contribuintes. Vejamos os calotes à Segurança Social. Sabe qualquer empregador, seja ele pequeno, médio ou grande, que com a Segurança Social não se brinca. Que não se pode ter dívidas sem rigorosos planos de pagamento sob a ameaça de duras sanções e penalizações. Mas isso não se aplica a todos, como se viu quando foi descoberto um montante superior a 16 milhões de euros de um empresário que certamente goza de um regime diferenciado. Goza de certeza. E também nesse caso ficamos com a suspeita de que há muito, mas mesmo muito, que ainda não sabemos. Que talvez nunca vamos saber. Mas o emaranhado das contas públicas não se fica pelas dívidas à Segurança Social. A embrulhada que envolve dívidas e acertos de contas entre empresas públicas e um grupo privado é outro indicador de uma esperteza que se manifesta nas engenharias financeiras em que paga um pelo outro e no fim pagamos nós outra vez. Tudo isto, mesmo parecendo muito, não deverá ser mais do que a simples e minúscula ponta de um gigantesco véu que cobre a Madeira e o Porto Santo. Porque é mais do que evidente que quando o regime implodir, e falta tão pouco, muito mais se vai saber. Mais do que a sensação de viagem por mar agitado com ondas que levam lá acima e nos puxam cá para baixo, este tempo estranho que vivemos não é mais do que o reflexo das dores de crescimento de uma cidadania que andou distraída e calada e moribunda e curvada. A carga foi tanta que muitos tiveram de escolher entre a deixar cair ou continuar a carregar. Durante o percurso autonómico, alguns até ajoujaram.