Júlio Gouveia Leite, funcionário público português, exercia funções em Timor-Leste, quando, a 1 de setembro de 1939, as forças de Hitler invadiram a Polónia, iniciando-se, assim, a Segunda Grande Guerra Mundial. Timor-Leste, nessa guerra, foi ocupado pelos japoneses, desde fevereiro de 1942 até 1945. Os portugueses, que lá se encontravam, tiveram de refugiar-se no interior e muitos foram presos. Júlio Leite foi, também, preso pelos japoneses, tendo sofrido maus-tratos e muitas privações na prisão. Fim da guerra e a reocupação A 15 de agosto de 1945, o Japão rendeu-se, após terem explodido as bombas atómicas, a 6 de agosto em Hiroshima e a 9 de agosto em Nagasaki. Alguns oficiais australianos não queriam devolver Timor-Leste a Portugal, pois, tinha sido a Austrália a principal força a lutar contra os japoneses. Portugal não tinha enviado um único soldado. (1) Júlio Leite e outros portugueses, logo que saíram da prisão, com muito sacrifício, retomaram as suas funções públicas para assegurar a reocupação portuguesa em Timor-Leste. Só depois de ter um substituto no serviço, Júlio Leite foi assistido e internado no Hospital de Dili, devido aos maus-tratos que sofrera, antes de regressar a Portugal, em 1946. A insensibilidade do Estado Júlio Leite, já em Portugal, ainda tentava restabelecer-se, quando recebeu uma carta dos “Serviços da Fazenda” (Finanças) para pagar cerca de sete mil escudos, pelas despesas no Hospital de Dili. Quantia muito elevada para a época. O funcionário fez exposições e reclamações, dando conta do muito que sofrera ao serviço do Estado e a importância que teve para a permanência de Portugal naquelas terras do sol nascente. Todavia, os Serviços da Fazenda foram insensíveis: as dívidas ao Estado são para pagar e ponto final. Júlio Leite, depois de muito ter sofrido ao serviço do país, pensava ele que o Estado tinha uma dívida para com ele, afinal, foi ele que teve de pagar ao Estado. - Esta é uma história verdadeira baseada no livro Quanto Timor foi notícia, de Cacilda Liberato, Editora PAX, Braga, 1972. O livro termina com este triste desabafo: «sursum corda!» - “Sursum corda” é uma expressão latina que significa “corações ao alto”: locução proferida pelo sacerdote ao iniciar o prefácio da missa, convidando os fiéis a prepararem suas almas para a participação no sacrifício. * Assessor do Ministério da Justiça de Timor-Leste 1) Hoje sabemos que Portugal tinha feito um acordo secreto com os Estados Unidos, segundo o qual, os aliados tratariam da libertação de Timor-Leste e, em contrapartida, Portugal facilitaria o acesso dos americanos à Base das Lajes, Açores. Foi este o motivo pelo qual Portugal não enviou qualquer soldado para Timor-Leste, durante a ocupação japonesa.
João Luís Gonçalves *