Portugal assinou recentemente o acordo de parceira com a União Europeia. É um documento importante que define as prioridades de intervenção dos fundos comunitários para o período de 2014 a 2020 (ver http:/www.pt-2020.pt). São 26 mil milhões de euros para os próximos sete anos (mais de 10 milhões de euros por dia). É “uma pipa de massa” como disse de forma quase vulgar e paternalista o ainda presidente da CE Durão Barroso. O documento identifica quatro domínios de intervenção: competitividade e internacionalização, inclusão social e emprego, capital humano, sustentabilidade e eficiência no uso de recursos. Acompanhei os trabalhos técnicos que levaram à produção dos documentos que sustentaram as negociações. Confesso que foi uma agradável surpresa constatar a competência técnica das pessoas envolvidas e a qualidade dos documentos, relatórios, planos e discussões que acompanham estes processos tão importantes para o nosso futuro. Infelizmente o discurso mediático e político está totalmente desfasado desta realidade. Parecem mundos paralelos... Pergunto-me se existe alguma relação entre a tecnocracia europeia e a nossa realidade? Será um problema dos tecnocratas europeus, dos políticos ou de nós próprios enquanto cidadãos? Vejamos... o documento faz um diagnóstico e apresenta um conjunto de constrangimentos que Portugal enfrenta. No domínio da competitividade e internacionalização: “prendem-se com o facto da especialização produtiva assentar em atividades de reduzido valor acrescentado e de baixa intensidade tecnológica e de conhecimento (...)”. Continua mas eu resumo e traduzo. Somos ainda um país de mercearias, padarias, cafés, empresas de construção, restaurantes e outros negócios simples. Não temos empresários, temos patrões que acham preferível contratar gente pouco qualificada e que pensam que inovação é mudar o balcão e a fachada do estaminé. Negócios simples, baseados no consumo interno e onde não vale a pena inventar nada porque isso é perder oportunidades e dinheiro. Até os nosso mais ricos e bem sucedidos são no fundo uma replicação deste modelo à escala de uma cadeia de supermercados ou de centros comerciais. Uma economia destas gera muito pouco valor e é um sorvedouro de recursos. Por isso é que quando o consumo ou o investimento (em construção) aumentam as importações disparam e não produzimos riqueza. Ao nível da inclusão social e emprego: “verifica-se um elevado nível de desemprego, devido a` atual crise económica”. Isto já é mais fácil de perceber porque nos toca mais diretamente. Mas o que é grave é o elevado desemprego de longa duração na população mais velha e o crescente desemprego e desinteresse dos jovens pela educação e pelo futuro. As coisas estão relacionadas. Um sector empresarial que vive à custa do consumo colapsa e atira para o desemprego pessoas desqualificados ao mesmo tempo que não consegue gerar oportunidades para os jovens mais qualificados. Cria-se o perigoso ciclo vicioso em que estamos metidos à décadas. O desemprego neste contexto está diretamente relacionado com o aumento do consumo interno (os salários) ou do investimento público (as obras). Ambos como sabemos são o alfa e o ómega de qualquer político obcecado pelo curto prazo. Mas continuando. No domínio do capital humano: “constata-se: um atraso face aos países mais desenvolvidos do nível médio das qualificações da população adulta e jovem”. Ou seja, apesar de não conseguirmos criar emprego, mesmo para os mais jovens e qualificados, continuamos longe dos níveis de dos países mais desenvolvidos. O documento é claro: “a inexistência, apesar da melhoria, de um sistema de educação e formação de qualidade e eficiente; e o desajustamento entre as qualificações produzidas e as procuradas pelo mercado de trabalho”. A isto eu chamo o “síndrome da barata tonta”. Até sabemos que a solução está numa aposta na educação a longo prazo mas passamos o tempo todo a mudar de direção sem perceber que a cada guinada (mudança de ministro, de modelo, de programa) a barata fica cada vez mais tonta e longe do objectivo. Finalmente no domínio da sustentabilidade e eficiência no uso de recursos temos que uma economia de “elevada intensidade energética (...) caracterizada por uma gestão ineficiente dos recursos e de grandes vulnerabilidades face aos riscos naturais e tecnológicos”. Raios partam que nem aquilo que herdamos geograficamente (sol, praia, mar e bom tempo) se safa. Gerimos mal os nossos recursos. Estragamos o nosso património natural, não aproveitamos as fontes e os recursos que temos e estamos mais expostos a fenómenos como as alterações climáticas. Este diagnóstico é sustentado num documento de mais de 350 páginas que, tirando alguns termos tecnocráticos que vão mudando ao sabor das modas e dos tempos, são os mesmos que há 20 ou 30 anos atrás. O problema está identificado mas exige uma aposta sustentada de longo prazo. O diagnóstico tecnocrático está totalmente desfasado da prática política e de cidadania. Só assim se explica que Portugal continue neste nó górdio que já leva dezenas de anos e várias gerações. No mesmo tempo que levamos de sucessivos quadros comunitários, países como a Coreia do Sul ultrapassaram crises bem mais graves e modificaram totalmente a sua economia e a vida dos seus cidadãos. Este documento deveria ser de leitura e reflexão obrigatória a começar por todos os políticos (do governo e da oposição), dirigentes e responsáveis das administrações locais, regionais e nacionais. Os senhores deputados e candidatos, presidentes de câmara, associações profissionais e empresariais, jornalistas e comentadores deviam ler o documento com atenção. Digam se discordam do diagnóstico e se concordam com as políticas públicas que foram propostas e discutidas publicamente ao longo dos últimos meses. Comprometam-se a não sabotar, nem que seja nos próximos seis anos, este compromisso para que em 2020 não estejamos outra vez a produzir um documento com um diagnóstico parecido. Por um momento parem e pensem que os problemas imediatos que vos ocupam agendas e jornais são o resultado da falta de compromisso e estratégia. Tenham a consciência que cada golpe que já começaram a planear para desviar fundos e manter as atuais negociatas vai ser fatal para o futuro dos nossos filhos e netos. Não fiquem contentes porque conseguiram à última da hora em Bruxelas negociar umas verbas para umas estradas. Confesso que o meu plano para este artigo antes de férias era explicar porque é que discordo de muitas das políticas públicas na área da investigação. Fiquei furioso com a posição da comissão relativamente à aposta que fizemos em Portugal na ciência. Como se esse fosse o problema e não o grande sucesso dos últimos anos. Confesso que me apetecia falar do processo de avaliação das instituições de investigação, do impacto que tudo isto terá a prazo em particular para a Madeira. Confesso que queria protestar pela frustração de ver tão poucos recursos aplicados na área da investigação. Mas a verdade é que tudo isso é muito menos importante do que o compromisso e a responsabilidade de fazermos o que está planeado. Existe um momento para discutir e discordar, agora é o momento para executar e rapidamente porque o futuro depende disso. PS: Deixo alguma recomendações música e leitura para o Verão. Quatro excelentes discos: “Nathalie Merchant” da ex-vocalista dos 10000 Maniacs, “Trouble and love” de Mary Gauthier, “Lost in the Dream” dos The War on Drugs e “Tings are Really Great Here” do Andrew Bird. Três excelentes livros que estou a terminar e que recomendo vivamente (peço desculpa pelos títulos em Inglês mas leio em formato electrónico): “Intuition Pumps and Other Tools for Thinking” de Daniel C. Dennet um livro importante sobre como pensamos. “As the Future Catches You” de Juan Enriquez sobre o impacto das biotecnologias no futuro. Finalmente “David and Goliath” de Malcolm Gladwell uma leitura descontraída sobre como ser pequeno é muitas vezes uma vantagem. Boas Férias. * Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal
Nuno Nunes Professor Universitário*