Fala-se dos “sem abrigo” como se fossem uma massa indiferenciada sem identidade própria. Os “sem abrigo” são afinal pessoas como nós os “com abrigo”, que por razões várias, que não se resumem a uma escolha, ficaram sozinhos, sem família e sem lugar onde morar. Alcoolismo, toxicodependência, desemprego são, entre outros, fatores que, isoladamente ou em interligação, desencadeiam situações de solidão e exclusão. A rua é de todos ou melhor da comunidade. Uns alugam ou compram as suas casas, os seus negócios, outros utilizam pequenas parcelas com contribuições às autarquias para comercializar alguns produtos, há ainda quem nos delicie com melodias várias a troco de umas moedas, quem crie estátuas humanas, quem passeie, se divirta, namore, estacione o seu carro em lugares definidos para esse fim ou simplesmente em cima dos passeios. Há ainda as festas organizadas, espetáculos, concertos, passagens de modelos, festas académicas, os comícios político partidários, as manifestações sindicalistas. Enfim a rua é de todos e o espelho de uma cultura, da gente que a habita e visita. Como tal as pessoas sem casa onde morar também pertencem à comunidade e precisam de ser respeitadas desde que também se façam respeitar. E “com abrigo” ou “sem abrigo” há valores e princípios que não dependem do agasalho nem das marcas que o definem. As últimas noticias em Portugal a este propósito referem algumas atitudes de “defesa de território” por parte de alguns elementos da comunidade que se sentem incomodados com a presença dos “sem abrigo” e não toleram a invasão da soleira da porta dos seus espaços privados. Existem animais, principalmente cães e gatos que habitam soleiras, telhados, beirais, quintais e jardins privados e que são tantas vezes tolerados e até adotados pela comunidade que não só lhes permite a soleira como até os alimenta. A comunidade revolta-se contra os maus tratos e abandono e tenta muitas vezes junto das entidades responsáveis encontrar soluções. O confronto com a pobreza e degradação da vida humana é para muitos tão desorganizador que não ver é a única forma de acreditar que não existe e que muito menos um dia lhes possa tocar à porta. Durante os muitos anos que trabalhei ligada à área das dependências conheci muitas famílias que tiveram que aceitar com muita dor e sofrimento que realidades que lhes pareciam desconectadas do seu mundo real um dia passaram a fazer parte das suas vidas. De fora para dentro a análise tornou-se diferente. Por isso quando se colocam “grades” para impedir que pessoas sem lar descansem nas soleiras, ou se protejam do frio ou da chuva, caminha-se para o mesmo princípio que medeia os atos de terrorismo em nome da defesa do território. Conhecer o trabalho das autarquias e das organizações, pressionar no sentido de encontrar respostas mais adequadas e mas céleres é um direito e um dever da comunidade. Este é o princípio da corresponsabilidade e da inclusão. Nada é definitivo nem para uns nem para outros.
Manuela Parente Psicóloga