Sigo-te, com o batimento rítmico e estático dos nossos passos, volta não volta, um de nós pára para arrancar um cardo que se fixou na roupa. Finalmente, paras esporadicamente junto a um limoeiro. E ficamos junto à árvore a ouvir-nos narrar e ser narrados à paisagem. Tens na mão a extremidade de um ramo e és tão delicadamente cativante que o ramo balança um pouco. A árvore é escarpada, o seu tronco é velho e enrugado e os seus galhos são abundantes na sua fragrância. Digo-te que os limoeiros são as únicas árvores que dão fruto, flor e rebentos ao mesmo tempo e agora estão todos juntos na árvore. Os três processos vitais todos em simultâneo, um ciclo em sobreposição. Em redor da base do tronco há chazirim, fungos, espinhos do velho excerto de raiz. Temos de ter cuidado com eles. Posso ver-te. Estás a andar há volta da árvore. Cientista como és, estás a examiná-la. As tuas mãos estão a vasculhar as pequenas folhas verde-escuras. Deixas um limão repousar na palma da mão e fazes um ligeiro movimento para cima e para baixo com a mão, como se estivesses a pesá-lo. O Sol está a realçar os pontos luminosos do teu cabelo. Posso ver-te, com um sorriso nos teus olhos azuis. Eis o fruto, este mesmo momento, eis as nossas flores, o nosso amor, eis o nosso futuro, pequenos limões verdes embrionários prometendo futura colheita, e eis os nossos espinhos, os nossos segundos separados, os nossos anos separados, selvagens, emergindo do chão em todos os ângulos. E eis de novo o nosso fruto, este momento de narrativa. Rodeias a árvore completamente e damos as mãos. Meu amor, passei muito tempo só neste jardim. Observo-te a vires na minha direcção. Posso ouvir os teus passos. Posso ver-te agachar-te para evitares os arranhões dos ramos. Estás diante de mim. Encosto a minha testa ao teu peito. Respiras no meu cabelo. É uma história como as outras. Uma história contada com pedras enterradas. Escavamos o jardim da família e encontramos as pedras, as tais. Seguro-as nas mãos, espalmadas, e uso as palavras que ela nunca me ensinou. « Aqui viveu um antigo palhaço da Babilónia, aqui viveu uma princesa fenícia, aqui viveu um debulhador de trigo, e um fabricante de sabão, um mestre tintureiro cujos dedos eram todos de cores diferentes.» Conheço estas palavras não porque a minha avó mas tenha ensinado, porque não o fez. Conheço-as porque também eu vivi naquela casa. Estive lá muito depois de as pedras terem trazido à superfície, ocultando os seus encantos e horrores da luz do dia. Escavamos. Saímos juntos para o jardim e escavamos bem fundo. Estamos ajoelhados. Viro-me para ti e pego nas tuas mãos e digo: «Aqui viveram mil gerações de fruta e de amor e de poeira de família». Pego na pedra e não digo nada. Quando volto a falar; sei que deixei o reino das palavras e caí ou talvez me tenha erguido ao reino onde as histórias não são feitas de pedra mas de ar e narrar é respirar. Respiro ofegante. Digo: «Esta pedra entregou-se uma vez nas mãos do homem que trabalhou neste jardim». Digo: « Brotou da terra e entregou-se a ele como um presente». Pegas nas minhas mãos. A pedra cai com estrondo no chão. Olhamos à nossa volta, pressentindo que estamos longe de estar sós; o jardim, apesar de vazio de outras pessoas, parece repleto. Ambos sabemos por que estamos aqui. Por que regressei e continuo a regressar a este pequeno pedaço de terra - este jardim, a nossa biblioteca. Sabemos que a minha fala é, na verdade, uma leitura e que, juntos, apertaremos os nossos corpos, recuando nas páginas do livro que aqui cresce, do solo deste jardim. Caminhamos para a árvore dupla. Quando nos aproximarmos, temos de nos agachar para evitarmos ser arranhados pelos seus ramos. És tão alto que tens de te baixar muito mais que eu. Isso faz-nos sorrir. Quando alcançamos os troncos gémeos, puseste as mãos entre eles - no grosso V onde se fundem. Continuas agachado. Eu consigo pôr-me de pé, quase direita. O fruto ainda não está maduro e nós estamos rodeados, de todos os lados, por tantas laranjas pequenas verde-escuras das duas variedades. Este sítio é tão belo e tem uma fragrância suculentamente espessa. A quietude do jardim é uma quietude de sussurros, uma quietude de ramos a roçar outros ramos, uma quietude pontuada pela ocasional peça de fruta verde a cair com um breve impacto no chão. Digo-te que a palavra história deriva da raiz grega «istor», que significa «conhecimento» ou «conhecer». Depois digo-te que a minha história não é verdadeira até à raiz, porque eu não sei nada. Tu estendes os braços e eu vou ao teu encontro. Sigo-te, baixando-me de novo para emergir dos galhos. Vou direito aos teus braços e ficamos juntos no meio do jardim. Sussurras: «Não me contes a história da história. Conta-me a raiz mentirosa». Eu pergunto: «Como distingues uma raiz mentirosa quando tu és um dos ramos vivos?» Ficamos calados durante um tempo que parecia infinito. Então, digo-te que sei de facto alguma coisa. Digo: «Sei muitas histórias». Tu sorris. Eu continuo a falar. Estou afogueada e estou a falar em voz alta, agitando as mãos para ti e para as árvores. Dizes : «Conta-me todas as histórias. Conta-mas uma a uma». Abraçamo-nos. Imagino, meu amor, que parte das nossas vidas é ficção, actualmente, a parte que, simplesmente, esqueceremos ou que nos recusaremos a lembrar? Serão os meus braços que se agacharão atrás do teu pescoço, dos teus ombros? Ou serão os teus olhos que procuram no céu, captando agora um relance de uma ave muito grande sobrevoando o jardim em direcção à água? Que parte irão os nossos filhos, ou os filhos dos nossos filhos, terão de inventar ao tentarem descobrir quem fomos e não fomos? Terão de inventar a forma como pressionas os lábios sobre o alto da minha cabeça, beijando-me em código? Terão de inventar a nossa postura, a nossa história, a nossa paixão, os nossos corpos plantados neste lugar, abraçados ao vento do princípio da noite? Terão de inventar as histórias sobre as quais assentamos? Enterro os dedos dos pés no solo. As histórias enterradas sob os nossos pés? Ou terão de tecer redes para captar as que flutuam sobre as nossas cabeças, as histórias que narram as nossas almas, as nossas almas montadas nas nuvens, em voo picado sobre o horizonte, como pombas à solta? A verdade serão estas palavras que agora exponho? Ou serão as palavras ainda presas debaixo da língua - tudo o que posso nunca escrever, nunca segredar, nunca proferir?

Renata Camacho