António Fournier Na passada sexta-feira éramos muitos na Casa da Cultura de Santana para assistir à estreia de “Mai maiores qu’essei serras” levado à cena pela dupla Paula Erra e Élvio Camacho. Inspirada no conto homónimo de Jorge Sumares, a peça é uma autêntica radiografia do nosso imaginário, uma subtil análise da psicologia daquele que Nemésio considerou “um dos mais plásticos homens da redondeza da Terra.” E de plasticidade expressiva bem se pode falar a propósito da magistral interpretação da dupla de actores. Dois momentos marcaram o serão pela absoluta coincidência entre texto e teatro: um quando Élvio, coberto de suor, disse “tanta era a auga que se botava do nosso corpo pra fora” e nos apercebemos de quanto sacrifício é feito o trabalho de um actor; outro quando Paula lembrou “cuando chegua um magote de fedalgos da cidade que vinho passear”, e nos reconhecemos, nós que nos tínhamos deslocado a Santana para assistir ao Teatro Feiticeiro do Norte. O que importa é não perder o norte e o nosso norte está para todos os efeitos no interior da ilha. Para muitos funchalenses, o linguajar madeirense acarreta sempre, como bem sabemos, uma espécie de auto-censura ou aristocrática linha de demarcação: quem fala assim são sempre os outros, os de campo, os do povo. Jorge Sumares subverte este falso lugar comum, revisitando o campo sem os paternalismos de outros escritores de cidade que vêem no “vilão dos altos” uma mera personificação do “bom selvagem”, mas também sem as recentes mistificações ideológicas do super-homem madeirense. A extraordinária lição de vida que nos dá o protagonista do conto está no facto de a pele da língua traduzir um modo único de estar no mundo que importa respeitar e valorizar. Não pode haver separação forma/conteúdo, como muito bem perceberam os actores ao subverter pontualmente o sotaque original do texto com o verniz burguês da cidade letrada e cosmopolita. Outro escritor, Ernesto Leal, que também soube escutar o campo madeirense, afirmou uma vez numa entrevista: “As nossas montanhas, ribeiras, poios, fajãs, ecos, calhaus implicam uma intimação ao madeirense para ele soar da maneira que soa. Rio e comovo-me até às lágrimas quando de súbito alguém fala madeirense à minha beira.” Rir e comover-se até às lágrimas foi o que todos nós fizemos neste reencontro com o mais profundo dos nossos mitos. Graças a Élvio Camacho e Paula Erra, também eles “mai maiores qu’essas serras”.