Não consigo evitar o olhar perdido, na desolação que é passar ao lado das favelas no caminho entre o aeroporto e o centro do Rio de Janeiro. E, por mais que me esforce, acabo sempre comigo a agradecer a sorte de ter nascido na Madeira, o privilégio de viver naquela Pérola do Atlântico. A imensidão das agora denominadas comunidades é de tal ordem, na realidade até onde a vista pode alcançar, que a solução não parece simplesmente viável.
Certa vez, numa fria e límpida manhã, saí do conforto de Copacabana e aventurei-me na favela do Morro da Babilónia. À medida que ia subindo a encosta, enfiado no meu capuz e de mãos nos bolsos, ia-me apercebendo da verdadeira realidade que é viver ali. Que perspectivas pode uma pessoa ter ao nascer e crescer inserido em tal ambiente? Que sentirá de cada vez que salta daquele mundo para a avenida Atlântica, convivendo lado a lado com gente consideravelmente mais afortunada? Mas de repente, dei-me conta de que a luz também brilha na escuridão. Vi essa luminosidade nas crianças que pouco a pouco apareciam sabe-se lá de onde, impecavelmente vestidas e asseadas, a caminho da escola. Maravilhei-me com os murais pintados de cores vivas apelando à união entre povos. Deliciei-me com o sorriso da senhora que me cumprimentava do nada. Sim, apesar de tudo, encontrei esperança em muitos olhares. Seria fé? Ou a simples crença de que é sempre possível o impossível?
Quando regressei à minha zona de conforto e sentei-me a contemplar as ondas explodirem no areal de Copacabana, tomando um fausto pequeno almoço, dei-me conta de como, mais uma vez, me tinha distraído. Não estava a aproveitar a vida em toda a sua plenitude, muito menos todas as incríveis oportunidades que esta, por estranhas artes, constantemente insiste em me proporcionar.
Mais tarde, quando regressei ao mar para velejar na baia de Guanabara, dei-me conta de como tantas coisas eram insignificantes, sem sentido, sem qualquer força de expressão neste enorme caldo de vida. O que realmente importava, era encontrar um sentido, não, mais do que isso, um significado para o momento presente. Que surgiu com sabor a mar...
João Rodrigues