Chego a um hotel em Paris e vejo um anúncio em várias línguas, inclusive na língua portuguesa, para o meu mais total conforto e compreensão. Ao texto, replicado em português, aparece a bandeira do Brasil. Já, ao tomar o comboio na Amsterdam Centraal, as explicações, algumas, diga-se de passagem, traziam no frontispício a bandeira de Portugal. Pus-me a rir, afoito à brincadeira, que também poderiam estar as bandeiras de todos – Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. E, já sem rir, ainda afoito à exegese, a bandeira da CPLP. Quo vadis? Vastas vezes, ponho-me a pensar sobre a lusofonia, seu potencial e seu alcance. Em contraponto a algumas intervenções por ocasião da entrada oficial da Guiné Equatorial à CPLP, na X Cimeira de Díli, penso que o clube dos países de língua oficial portuguesa não se reflete apenas na “portugalidade” e, em consequente desdobramento, no modo de ser e de estar tão somente dos portugueses. Digo o mesmo em relação à “angolanidade”, à “brasilidade”, à “caboverdianidade” e mais “nidades” que, sendo importantes, não se lhes aceita a hegemonia. A reinterpretação semântica da lusofonia, resignificada hoje em múltiplas identidades culturais (inclusive linguísticas) e diversas soberanias (inclusive de princípios e interesses), deve ser a pedra de toque para o fortalecimento de uma “comunidade de plataforma lusófona”. Olhando para o Globo e inferindo ali uma consequente visão da geopolítica, torna-se mais que legítima pretender uma coisa maior e melhor. Não se consegue construir uma CPLP forte, operacional e credível, capaz de ter um papel (cultural, social, econômico e político) mais efetivo e determinante no mundo globalizado, mantendo a ideia de uma rede em que os atuais nove estados soberanos, mais as suas comunidades emigradas, estejam amarradas a uma geometria fixa e invariável em torno de um centro reprodutor unilateral do ethos e do pathos. Ponho-me a pensar no que seria a Língua Portuguesa, hoje a quinta do Planeta, se o Brasil dela abstivesse e se os países africanos não a assumissem como idioma da educação formal e da administração pública? O que seria a CPLP se, presa à sua carta fundacional, não atraísse novos países (estes em diferentes velocidades históricas, mas dispostos a virem partilhar o desejo do diálogo “inter-lusófono”), nem fosse, agora e doravante, uma comunidade mais composta e plural? Leio as palavras de Abdou Diouf, Secretário-Geral da Francofonia, no “Le Magazine de l´Afrique”, assertivas de que “Sans l´Afrique, la Francophonie serait sans avenir”. Mutatis mutandis, o que seria a Lusofonia sem os vários continentes? O que seria a CPLP se, podendo emancipar de dúbias heranças do “orgulhosamente só”, pudesse trabalhar para alargar o espaço dos novos países observadores e, paulatinamente, integrá-los como membros de pleno direito? Aliás, parecem ser estes os grandes desafios da “presidência timorense” e, fazendo jus à rotatividade, da próxima “presidência cabo-verdiana”. Em jeito de ressalva, não fique aqui a impressão de que defendo regimes fechados, autoritários e monolíticos, nem que esteja agora, sub-repticiamente, a legitimar comportamentos que firam a dignidade e os direitos humanos. Nada disso. Sou contra a pena de morte em qualquer país do mundo, assim como não subscrevo as perseguições políticas, a tortura e o controlo dos cidadãos, uns através das antigas tecnologias, outros através das novas tecnologias. Sou contra o assalto ao Existencialismo, tanto em latitude como em longitude. Entrementes, o assunto versa ora sobre como alargarmos a lusofonia, em que a premissa correta, ao meu modesto ver, exigiria a alteridade e a desconstrução de uns e de outros desse, já bem demorado, Síndrome de Casa Grande e Senzala. Tudo isso para dizer o quanto me apaziguaria o pensamento se no hotel de Paris, no Amsterdam Centraal ou em qualquer ponto da Terra, esta casa comum, pudesse inferir pela bandeira da CPLP que “também falamos em português”!

Filinto Elísio