ABCM Do imaginário das fábulas, fica-nos na memória, a figura da formiguinha trabalhadora e empreendedora, que nos suscita sempre uma grande ternura e admiração. Ora, há uma figurinha que por aí pulula, tal formiguinha de La Fontaine, que, como a verdadeira, nos suscita à primeira vista, alguma ternura e admiração. Ela trabalha, trabalha, numa lufa-lufa diária, incansável, sem se perceber muito bem o que a faz correr. Eloquente, rápida no dizer, dir-se-ia trabalhar afanosamente para o bem comum das formiguinhas. Mas desenganem-se os olhos desatentos e encantados dos amantes do universo das fábulas, porque a nossa figurinha tem o encanto e o charme típico dos malfeitores. A nossa formiguinha trabalha alarvemente para se alimentar e ao seu clã e nada mais. A nossa formiguinha é como a fruta bela por fora e podre por dentro e só se alcança o seu verdadeiro sabor amargo à dentada subsequente. E quanto mais se vai conhecendo a figurinha mais se vai perdendo o encanto fabular, porque esta formiguinha é rancorosa, vingativa, precipitada, inconsequente, maldizente, egoísta, nefastamente ambiciosa, e não conhece códigos de ética ou conduta para prosseguir os seus objectivos nem para perseguir os seus opositores, até usa e trai os amigos. Mesmo nas guerras convencionais, há códigos de honra que se respeitam, coisa que esta formiguinha desconhece e vai singrando porque é difícil combater em terreno árido de valores, ainda que bélicos. Mas o que faz correr esta figurinha? O propósito último desta figurinha é ser a única formiguinha e o seu clã, a se alimentar e a mandar nas formiguinhas. Mas qual predador psicopata a nossa formiguinha não destrói só os adversários, mas tal herbicida danoso, destrói as plantas que brilham e as que não brilham, gratuitamente, numa ânsia patológica de afirmação, de poder absoluto. Será mal amada a nossa formiguinha? Terá distúrbios adolescentes de personalidade por resolver? Talvez, por ser só…uma formiguinha, embora deslumbrada e cega num Olimpo de poder que julga absoluto. Como todos os tiranos, a nossa formiguinha acabará inelutavelmente só e dela não rezará a história, porque nesta cabem aqueles que deixaram algo de bom ou de belo ao bem comum ou ao próximo e não os que curaram unicamente do seu umbigo e pecúlio. Como se chama a formiguinha?