Como o Caeiro, sabes, digo adeus aos versos que se vão e aos que chegam, marcados desde dentro como teus como sons imperfeitos que se entregam a quem passe e repasse, e já não sabe se a conjugação de que como que ligo é dele ou de quem é. Como se acabe, o dia em que te escrevo é que te sigo, e mais importa, e mais me livra inteiro, a ti, meu amor, meu caso e minha casa, meu bom cheiro, a ti ou a mim mesmo, ao que vier deste completo Inverno em que me abeiro da verdade que entenda quem puder. Pois dorme, ó meu amor, a sono salto para as mãos do que tenho ou não tiver; dorme a tua surpresa de cobalto e passa a solidão de seres minha até ao outro lado, onde te espera a outra forma de uma nuvem nova, mais um certo cavalo e uma esfera de puríssimo vento onde se prova o logro das palavras. Eu à porta dos rios imolados te procuro com uma espada aguda que me corta enquanto passo e vejo, sigo e duro. Pois dorme, meu amor, que não estás morta e esta mesma espada rasga o escuro. Quase não querer-te é querer-te ainda mais: se tudo baixa e funde sobre mim, não saibamos de onde ou quando sais nem porque chegas ao chegar ao fim, ou se outras horas de lume te dirão tudo ou al que eu não diria. Sou alguém que resume o minuto capaz como estria que risca o mundo sempre sal e fazedor de um ar sempre perfeito: que nunca mais, amor, verás o mal e o bem que muda o mar e o seu jeito de vir ou de ficar neste sinal. E eu, quanto mais quero mais aceito. Amor, amar-te, amar-te quanto, queimar o verbo quente nos minutos, amar-te nas palavras que não canto mais que tê-las dispersas, como enxutos olhos de Verão perene, e de surpresa; amar de vida e oco, ter perdido outro pão, outro vinho e outra mesa além do que seres me dá doído às horas da manhã; amar o leve e pesado, sentir a tua mão. Por ti dou tudo, mortes, mais do que e possa de mim ou nada ser ou estar; por ti me vejo e sujo, e sou sandeu, viajo sem bilhete a marear ou mareado de quem , ou em que passo pra outro continente que contenha fidelíssima a história que te faço, antes que conte, ou cante, ou livre venha imitar os sossegos e as agruras das algas-picos sob o sol caído de tantas e cinzentas nuvens duras. Por mim me fino, fano, e me divido entre a noite de vela em que me curas e de dia perto, porto, parto ferido. Num país infalível eu te quero, numa nuvem de sucos e de lumes; num país insolúvel desespero sem tempos pelicanos que me arrumes: sem tempos mais perfeitos, ou sequer imperfeitos, soletres, abonados de horas de colares e de menina, que és não minha, perto, nos parados minutos anos-luz mais verdadeira. Nesse país de estevas e de barro inventarei giestas vida inteira até que nunca, até que brote o sarro de te não ter nem ser à tua beira. Que nele é que me tomo e que te amarro. Não sei, amor, sequer, se te consinto ou se te inventas, brilhas, adormeces, nas palavras sem carne em que te minto: a verdade intemida em que me esqueces. Se não supor-te é suportar deveras neves de brinco e branco de cortiça, não é por isso mesmo que não esperas outra bandeira que se alça ou iça, ou tremes tal, ou sais e me devoras com toda a casa aberta, mas o céu envergonhado de outros dentros; foras outra que tu, e não seria eu a escrever no papel que o inventar-te é já um mal maior do que viver com esta mão direita só em parte e um centro amargurado que me fere. Não é o meu amor, amor, a arte de ser ou estar de cor ao te escrever. Em nada tenho tudo, dito e feito, e nisso tens a estrela que mereço brilhando perto, ao fundo do teu peito. Não mais, as ondas atormentem outro cabo do mundo que o meu nome. O que faz das folhas, do que sentem, outro tanto não é que a nossa fome que morta enfim, já logo nasce nova, insatisfeita até que a morte o diga. Por isso, amor, pego na folha, e prova a história universal de agora antiga como do corpo a curva e o lugar, e um silêncio plano sobre a mesa. Que as ondas atormentem : porque estar é não distar de nada a cor coesa que nos pinta de espaço e de vagar, entregues, nus, tomados sem defesa. Os ventos soltos sobem as encostas até ao mar que nos espera. Por isso, amor, sabendo quanto somos, ou não sabendo, sabes quanto és; viverás sem porquês, assins ou comos, num respirar intenso de marés. Tocam banjo meus olhos nas tapadas, invisíveis, correntes, cobertores do limo, das corridas, das aguadas manhãs de medo sobre sal e dores. Nas primaveras dúbias, impotentes, encerro-te , amor, no quadro mudo dos quatro ventos pálidos e quentes e no caminho aberto, silvo agudo. De nada nos separa o nosso amor, nem sequer a raiz será possível mais que à folhagem fofa mas sem cor, preocupada com o futurível. Às mãos que dou e dás, por isso dadas à terra e à ternura e à limpeza dos pés com que subimos as escadas, não de bandeira, de madeira e mesa são penhor indistinto, ou badaladas, do sino que tocar com mais pureza.
Renata Camacho