Nelson Rosário Estando a alma da freguesia do Caniço enlutada pela partida da D. Manuela, desafiei-me a mim próprio a transpor para o papel a caligrafia do meu sentimento. Minha pequenez é no entanto um estorvo, para que em breves palavras possa homenagear tão nobre senhora.

A D. Manuela era parte constituinte do ADN do Caniço, freguesia que ela tanto se orgulhava de pertencer como da sua história.

Seu andar pendular convidativo a uma aproximação de aconchego, era reconhecido ao longe particularmente no trajecto que fazia entre a sua residência e a igreja matriz, lugar que marcava presença com assiduidade.

Foi de braço dado com a comunidade paroquial, que mais se deu a conhecer pela sua solidariedade e generosidade para com os mais desfavorecidos.

O fim caritativo iluminava assiduamente o seu espírito pedagógico, que para além dos da sua terra, inclinava admirável atenção aos mais necessitados da ilha de Madagáscar.

Seu carácter, seu espírito crítico, suas convicções, sua frontalidade e espontaneidade, esbarravam por vezes na sensiblidade dos mais próximos, contudo a sua forma de ser e estar tinha como alicerce principal o bem comum.

Eu com idade para ser seu filho, tinha o privilégio de respeitosamente poder brincar com a D. Manuela, surpreendia-me como correspondia, pois o seu sempre presente sentido de humor associado àquela vista trémula, davam-lhe uma graça ímpar e apaixonante.

Foi junto à entrada da sua casa num apelativo banco de pedra, diria mesmo romântico, que sentados trocamos pela última vez algumas palavras.

Eu com as minhas curiosidades de forasteiro e a D. Manuela como verdadeira contadora de histórias, isto a propósito de um trabalho cultural que tenho vindo a desenvolver do qual a D. Manuela era uma das madrinhas. Assim passávamos longos e aprazíveis minutos, admirava nela a forma como memorizava as datas dos acontecimentos mais marcantes da história da freguesia do Caniço.

Muito ficou por partilhar, porém fica a certeza, que o laço de amizade que fomos contraindo jamais desfazer-se-á.

O povo verdadeiramente canicense compareceu em massa às cerimónias fúnebres da D. Manuela numa manifestação de apreço, gratidão e amizade digna de registo.

Sentia-me triste pela sua falta mas ao mesmo tempo feliz pela leveza espiritual que reinava na assembleia, fruto do empenho dos intervenientes e da mansidão da D. Manuela.

Fico grato a Deus por ter sido seu contemporâneo e seguro com firmeza o cordão de memórias e amizade à D. Manuela.

A paz esteja sempre consigo D. Manuela.